A Oração e a Vontade de Deus–EBD

Comentei em uma de nossas aulas que essas lição seria muito especial, pois trata de uma questão, da qual sempre terá uma mistério contido no seu bojo.

Essa questão é sempre levantada quando acontece algum acidente natural, ou quando somos atingidos por tragédias. Dizemos na nossa revolta, cadê Deus no meio disso tudo. Quando tomamos conhecimentos de Anjos (Crianças pequenas), que sofreram abusos ou foram assassinadas de forma brutal. No nosso devaneio humanístico, queremos enxergar o mundo sem Deus, pelos menos sem esse Deus que não está nem ae, para a dor de seus filhos.

Será que Deus se preocupa conosco realmente? Como fica a vontade de Deus diante das grandes Tragédias da Humanidade? Deus é o culpado por todos os males do mundo? Não´perca a super lição do Domingo Próximo e tenhas suas perguntas respondidas.

 

Um pequeno resumo da Lição:

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Orar em Grego: proseuchomai - orar a Deus; como em suplicação ou adoração - (Strong’s)

Vontade em Grego: thelema (grego), determinação, escolha, propósito, decreto.

 

OBSERVAÇÂO:

Não perca o Café da Manhã de 8: 30 às 9: 00

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O Ministério da Intercessão–EBD

Um enfoque técnico do estudo que teremos no Domingo, quero um melhor aproveitamento da classe. Então estarei passando alguns detalhes aqui de Exegese Bíblia para dá suporte ao conteúdo programado.

Resumo da lição:

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      O  que é Intercessão?

Segundo os Católico:

Segundo o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, a intercessão "consiste no pedir em favor doutro. Ela conforma-nos e une-nos à oração de Jesus que intercede junto de Deus Pai por todos os homens, em especial pelos pecadores. A intercessão deve estender-se também aos inimigos" (n. 554).
pt.wikipedia.org/wiki/Intercessão

 

Segundo os Evangelicos:

Interceder é colocar-se no lugar de outro e pleitear a sua causa, como se fora sua própria. É estar entre Deus e os homens, a favor destes, tomando seu lugar e sentindo sua necessidade de tal maneira que luta em oração até a vitória na vida daquele por quem intercede.

Segundo o Hebraico:

Paga (hebraico) - Vem da raiz de uma palavra que significa "colidir pela violência". Paga segundo a Concordância de Strong, quer dizer: "colidir, encontrar, por acidente ou violência, ou (figuradamente) pela importunação. Vir (entre), suplicar, cair (sobre), fazer intercessão, interceder, pleitear, prostrar, encontrar com (juntos), suplicar, orar, alcançar, correr". É esta a palavra usada em Is. 55:12; Jr. 7:16; 27:18; 36:25. O Léxico Hebraico-Caldeu do Velho Testamento, de H.W.F. Gesenius, ressalta vários significados existentes na raiz da palavra. Destacamos: "Vir sobre ou contra, quer de propósito ou acidentalmente, quer violenta ou levemente; num bom sentido, assaltar alguém com petições, orações; instá-lo; encontrar-se com; alcançar alguém; fazer uma aliança com alguém..." Interessantes são também as expressões: "colocar-se na brecha", para defender alguém (Ez. 13:5; 22:30; SI. 106:23) e "erguer um muro em torno de alguém" (Ez. 13:6; 22:30).

 

Segundo o Grego:

Ënteuxis (grego) - (substantivo) De acordo com W. E. Vine, em seu Expository Dictionary of the New Testament Words, "primariamente denota encontrar-se com; então, uma conversação; uma petição; é um termo técnico de aproximação de um rei, bem como para a aproximação de DEUS em intercessão; é traduzido para oração em  I Tm. 4:5 e no plural em I Tm. 2:1 (isto é, procurando a presença e ouvindo de DEUS a favor de outros). Entugchano (grego) - (verbo) Segundo W. E. Vine, "primariamente harmonizar-se com, encontrar-se com o fim de conversar; então, fazer petição, especialmente intercessão, pleitear com uma pessoa, tanto a favor quanto contra outros;   (a) contra: At. 25:24; Rm. 11:2;  (b) a favor: Rm. 8:27,34; Hb. 7:25. Huperentugcha no grego) - Interceder a favor de; fazer intercessão por.  Interceder, segundo o Dicionário de Aurélio, é "pedir, rogar, suplicar (por outrem); intervir (a favor de alguém ou de algo)" O Dicionário da Bíblia, de Nelson, declara: "O ato de peticionar a DEUS ou orar a favor de outra pessoa ou grupo."

A intercessão é a oração mais preciosa diante de Deus pois a pessoa deixa de pedir para si e de olhar para seus interesses e pensa no proximo, isso toca o coração de Deus de jeito. Você pode acompanhar na Palavra de Deus, no Livro de Jó, quando ele pára de se perguntar o que aconteceu, e pára de procurar culpados e culpar em si mesmo, e ora pelos se amigos. A Bíblia diz e então Deus Virou o cativeiro de jó enquanto ele orava pelo seus amigos.

OBSERVAÇÃO:

Não esqueça o café da manhã.

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MENSAGEM NO MEU ANIVERSÁRIO





Hoje Completei mais um ano de vida e estou muito contente por isso, principalmente por sentir que finalmente as coisas estão acontecendo, Deus está fazendo acontecer coisas maravilhosas na minha vida. E meu querido irmão, quando Deus quer te abençoar quem pode impedir, então acredito que chegou o momento de Deus derramar sobre mim, e está vindo as chuvas de Deus.
Fizemos um culto de ação de graças comemorei junto com minha cunhada ela também faz no dia 23 de Outubro. Durante nosso culto quando chegou meu momento de falar, falei sobre Provérbios 4 do verso 1 até o verso 12.
Acompanhe comigo essa leitura:

1
Ouvi, filhos, a instrução do pai, e estai atentos para conhecerdes a prudência.
2
Pois dou-vos boa doutrina; não deixeis a minha lei.
3
Porque eu era filho tenro na companhia de meu pai, e único diante de minha mãe.
4
E ele me ensinava e me dizia: Retenha o teu coração as minhas palavras; guarda os meus mandamentos, e vive.
5
Adquire sabedoria, adquire inteligência, e não te esqueças nem te apartes das palavras da minha boca.
6
Não a abandones e ela te guardará; ama-a, e ela te protegerá.
7
A sabedoria é a coisa principal; adquire pois a sabedoria, emprega tudo o que possues na aquisição de entendimento.
8
Exalta-a, e ela te exaltará; e, abraçando-a tu, ela te honrará.
9
Dará à tua cabeça um diadema de graça e uma coroa de glória te entregará.
10
Ouve, filho meu, e aceita as minhas palavras, e se multiplicarão os anos da tua vida.
11
No caminho da sabedoria te ensinei, e por veredas de retidão te fiz andar.
12
Por elas andando, não se embaraçarão os teus passos; e se correres não tropeçarás.




Achei A leitura sensacional, pensei, 'gente já li a Bíblia toda 11 vezes e não tinha reparado nesse texto' senti então que precisava dá uma outra olhada nesse texto com calma.

O tom em que a narrativa segue não temos dúvidas que é do Rei Salomão.

V. 1: ele aponta Alguém que está vendo as coisas de cima, de um prisma diferente, amplo, que ver os dois lados da situação e apresenta sua definição sobre o assunto.

V. 2: ele entra na narrativa e começa agora a participar do todo, dando conselhos tanto no sentido farás, como não farás.

V. 3: Agora o autor se assume no texto e diz, estou falando sobre mim, pois quando "eu era criança". Ele olha para o passado e lembra-se de como ela tratado pelo Rei Davi, o Homem Segundo o Coração de Deus. Sobre o ensinamento de sua mãe. Mas olhar para traz passa a ter sentido, quando queremos resgatar principio abandonados, e práticas boas esquecidas.

V. 4 - 9: Ele traz uma lista dos principais conselhos de seu Pai, ele passa a lembrar dos detalhes daquelas reuniões maravilhosas, ele estava com o Rei Davi, Foram tão Marcantes as palavras de Davi, que ele enumera elas.

V. 10: Ele traz agora umas coisas interessantes, anexa a observâncias dos princípios ensinados por Davi a longevidade da vida. Um pai está dizendo para o filho 'ouve o que te digo e você vai viver mais'.

Quero aproveitar esse momento para trazer um pensamento que tenho sobre um dos grandes mandamentos da Bíblia, 'Honra teu pai e a tua Mãe, para que se prolonguem seus dias'.
Nesse mandamento ele não fala sobre o tipo de pai e mãe, apenas diz Honra-o.
O que é honrar pai e mãe, é nunca dizer nada feio perto deles, é nunca os ofender, é nunca os irritar. Será que é isso, não, claro que não. É muito mais do que isso.
Mas o que quero destacar mesmo são os benefícios disso, Se prolongarão seus dias de vida.

V, 11 - 12: Ratificação. Olha sei como te criei, sei o que te ensinei, sei em que caminho te fez andar. Se andar nesse caminho você vai longe e tem mais uma coisas pode até correr, mas se for segundo os princípios que te ensinei, nunca tropeçará.


Quando li esse texto lembrei-me da minha infância, aquelas manhãs em que meu pai e minha mãe estavam de joelhos orando e abençoando minha vida e de cada um de meus irmãos. Tinha dias que eu fingia que estava dormindo para não orar, mas nunca sairá da minha cabeças aquelas orações de amor.

Os anos estão passando, meu corpo está mudando, meus cabelos cumpridos estão ficando brancos, mas nunca me esquecerei dos ensinamentos de minhas infância. Obrigado Senhor por Minha Família.

A Foto é do meu Pai e de minha Mãe (in memória)
Minha Base, Minhas origens.

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The Call - cronicas de narnia



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EXIBIÇÃO DO FILME - AD CALIFÓRNIA


Quero destacar aqui no site, meus sinceros agradescimentos a esse povo querido da Assembléia de Deus de Califórinia. id="fullpost"> No ultimo sábado nos reunimos para assistirr um filme bíblico e espiritual, que despertou à nossa igreja, para realidade de nossa peregrinação nessa terra, e para compreendermos a grandeza desse desafio...
Mas também nos tranquilizamos ao ver todas as promessas e ferramentas que Deus, nos dá para nos fortalecer nessa jornada...
Então povo lindo e querido... preparem o coração pois muito mais vem ae...

A Paz de Deus!

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CAFÉ DA MANHÃ DOMINICAL


agosto 2010 043
Upload feito originalmente por silvano silva



Todos os domingos estamos reunidos na Assembleia de Deus Central do Califórnia, Pr . Claúdio CEstamos as 8:30 reunidos para o café da manhã dominical, e você é nosso convidado, fica próximo ao Atacadão da Dutra em Nova Iguaçu.
Logo após o café começa o maior seminário do mundo a Escola Dominical.

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"A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra". [JESUS CRISTO]

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O General Romano

 



O General Romano

 


 

1

Antes de apresentar ao leitor os extraordinários relatos a respeito de Eustáquio e sua família martirizada, julgo de bom proveito contemplar por um momento o maravilhoso e consolador aspecto de triunfo conce­dido pelo Todo-Poderoso aos seus servos, nos dias da perseguição. Embora centenas de mártires tenham partido da arena do Coliseu para o céu, poucos deles foram mortos pelas feras. Este fato é um raio de luz em meio a todos os horrores de crueldade e carnificina.

Deus. que sabe mudar a natureza feroz desses animais que rondam por suas montanhas e desertos nativos, à caça de alimento, e transformá-los em protetores e companhias de seus eremitas, fez deles, cm vez de instrumentos da mais horrenda morte, os defensores da castidade de suas virgens, e as testemunhas da santidade de seus santos. O Criador de todas as coisas planejou que o animal irracional fosse servo do homem e. com poucas exceções, não lhe permitiu ser o executor de inocentes.

Uma das mais consoladoras páginas na história das perseguições aos servos de Deus é o milagre, muitas vezes repetido, de Daniel na cova dos leões. Contudo, não no silencie» e escuridão da caverna onde o jovem profeta foi jogado, mas ao sol do meio-dia, no grande anfiteatro da capital do mundo, e perante 100.000 espectadores. Os milagres foram destinados por Deus a serem os servos da verdade e os agentes da convicção. Na intervenção visível de seu poder em preservar os seus filhos da fúria das bestas no Coliseu, Deus apresentava aos pagãos de Roma uma prova incontestável da divindade do cristianismo, e uma clemência que eles não sabiam apreciar. Se os muros do Coliseu pudessem falar, relatar-nos iam algumas cenas de triunfo consoladoras, onde os mártires eram maravilhosamente preservados.

Eusébio, que foi uma testemunha ocular de algumas dessas cenas, descreve com eloqüên­cia e sentimento como as bestas selvagens foram incapazes de causar dano aos cristãos, e voltaram-se aos pagãos com fúria destrutiva. "Às vezes", conta ele, "investiam contra os campeões de Cristo nus e indefesos, mas detendo-se como que por um poder divino, volta­vam a suas cavernas. Isso acontecia repetidamente, e despertava a admiração dos espectado­res; por exigência deles, quando a primeira fera se recusava a atacar, uma segunda e uma terceira eram enviadas contra o mártir, mas sem qualquer efeito.

"Você teria ficado boquiaberto1', continua Eusébio, "diante da firme intrepidez daqueles santos campeões, e da fortaleza impassível demonstrada por pessoas da mais tenra idade. Podia-se ver jovens, que ainda não haviam completado vinte anos, resistirem imóveis no meio da arena, enquanto oravam a Deus com fervor, e não se retraiam de onde estavam nem mesmo quando os ursos e leopardos, respirando ira e morte, quase lhes tocavam o corpo com o focinho. Podia-se ver outros lançados à frente de um touro enfurecido, que atacava os pagãos que se aproximassem, atirando-os ao ar com os chifres, e deixando-os semimortos; mas. quando esse mesmo touro, berrando de raiva, investia contra os mártires, não podia aproximar-se deles: esgravatando a areia com as patas, arremessando os chifres de um lado para o outro, e resfolegando raiva e violência por haver sido irritado com as brasas incandescentes, o animal enfurecido era, a despeito de tudo, puxado para traz por mão invisível. E outros ainda, depois de os animais selvagens haverem sido inutilmente provocados, eram mortos à espada, e seus restos mortais, em vez de serem sepultados, eram entregues às ondas do mar" (História Eclesiástica, livro VIII).

As situações descritas por Eusébio eram freqüentes em todo o Império. Onde quer que se ouvisse o nome cristão, a perseguição assolava. Parecia que o Deus Todo-poderoso adotara um expediente para conferir publicidade à sua Igreja iniciante, bem como um sinal - uma espécie de selo - de divindade. Em sua misericórdia e bondade, Ele fez da perseguição uma abundante colheita de almas. Baronio menciona (ano 307) que na perseguição de Deoclécio, quando a morte violenta alcançava diariamente a casa dos milhares, vinte e cinco novas paróquias foram designadas na cidade para batizar e instruir o povo que se multiplicava sob a espada. As horrendas e execráveis barbaridades a que eram submetidos os cristãos, com o objetivo de forçá-los a apostatar. bem como impedir outros de abraçar a crença proscrita, produziam um efeito totalmente contrário.

Os mártires de ambos os sexos, desde a mais tenra à mais avançada idade, não apenas suportavam com força sobre-humana os seus sofrimentos, como os saudava com alegria, tosando a glória de Deus e a conversão dos pagãos. Seus próprios perseguidores eram forçados a aplaudir o heroísmo daqueles a quem odiavam tão amargamente, e a sentir-se desgostosos e afligidos diante das atrocidades que eles mesmos haviam exigido.

A reverência que os animais dispensavam aos mártires c demonstrada de modo tocante na circunstância que citaremos dos Atos de três mánires de Tarso, apresentados nos Anais de garonio. no ano 290. Eles não sofreram no Coliseu de Roma; o seu martírio deu-se noutro anfiteatro do Império, e os registros de sua morte servem como amostra do que geralmente acontecia naqueles dias de horror. Esses mártires, Taraco, Probo e Andrônico, haviam sido torturados da maneira mais cruel em Tarso, na Cilícia; foram transportados de lá para Mopsueste, onde foram novamente submetidos a indescritíveis barbarismos, e depois, atormentados de novo em Anazobus. Ficaram tão cobertos de ferimentos, e com os ossos quebrados e puxados de suas articulações, que quando Máximo, o governador, desejou finalmente expô-los às bestas no anfiteatro, foi necessário que os soldados obrigassem alguns homens a carregar pelas ruas os seus corpos quase sem vida.

"Quando vimos aquilo1', contam os três cristãos que escreveram os Atos e sepultaram os restos desses mártires, "viramos o rosto e choramos. E quando os seus corpos esfacelados foram arremessados dos ombros dos homens ao chão da arena, os espectadores, horrorizados pela visão, começaram a murmurar contra o governador; muitos deles levantaram-se e deixa­ram o teatro, expressando seu desgosto pela feroz crueldade. Máximo, então, mandou os guardas junto de si tomarem os nomes daquelas pessoas, pretendendo acenar contas com elas. A seguir, ordenou que as feras fossem soltas sobre os mártires, e quando elas não os tocaram, determinou que os tratadores fossem açoitados. Um urso, que devorara três homens naquele dia, agachou-se aos pés de Andrônico, e pôs-se gentilmente a lamber-lhe as feridas, não se importando que o mártir lhe puxasse os pelos, numa tentativa de irritá-lo.

"Enfurecido, o governador ordenou que os lanceiros transpassasse o urso. Terentiano, o organizador dos jogos, temendo a ira do tirano, tratou de garantir o sucesso da carnificina, determinando que uma leoa trazida de Antioquia por Herodes fosse solta sobre os mártires. Porém, para terror dos espectadores, a leoa pôs-se a saltar no lugar onde estivera reclinada, e quando finalmente puderam trazê-la até os mártires, ela abaixou-se diante de Trácio, portando-se mais como um cordeiro que como uma leoa.

"Gritos de admiração romperam de todo o anfiteatro; acabrunhado, Máximo gritou com os tratadores para que provocassem a leoa. A felina, porém, com outro salto, abriu caminho atráves da paliçada, e voltou à sua toca. Terentiano, o organizador, recebeu então ordens de prosseguir, sem mais delongas, com os gladiadores, instruindo-os a, primeiramente, executar os mártires a espada".

Acham-se registrados um ou dois fatos extraordinários de animais que se recusaram a tocar os escravos a eles jogados, mas esses foram casos excepcionais de reconhecimento e - traços de nobreza mais freqüentemente encontrados na criação bruta que na racional. Nossos leitores conhecem bem a história de Androclus e o Leão. Sêneca também menciona em seu segundo livro. De Beneficiis, no capítulo nove. que um leão não tocou num de seus tratadores que fora condenado à exposição à fera. Na vida de Sabba, um fato similar ao de Androclus é mencionado, e o leão agradecido viveu no monastério com os seus monges.

Esses fatos, ainda que interessantes e estranhos, não foram meros milagres. Não existe nada de sobrenatural neles, mais do que há na fidelidade de um cão, que perderia a vida em defesa de seu dono, ainda que este fosse rude. Somente a intervenção do poder divino pode impedir um animal enraivecido de saltar sobre uma vítima indefesa, ou fazê-lo agachar-se aos pés de uma pessoa que nunca viu antes, e ao mesmo tempo dirigir a sua fúria ao tratador que o alimentava. Esses milagres foram operados pelo Todo-Poderoso a favor de seus servos e Eustáquio e sua família são outro exemplo dessa preservação maravilhosa.

Na vida desse grande mártir temos um dos extraordinários romances sagrados do segundo século; uma conversão tão maravilhosa quanto à de Paulo; uma vida de provações e aflições semelhante a do patriarca Jó; e uma gloriosa morte pelo martírio, a mais terrível nos anais da perseguição.

Nenhum romance sensacional dos dias modernos detalhou as vicissitudes imaginárias da vida, de modo mais estranho e interessante que este acontecimento real, chegado até nós com a autoridade da história. Há homens acostumados a duvidar de tudo o que é estranho na história, e eles riem com sarcasmo de nossa credulidade nos mais sagrados registros do passado. Portanto, apresentaremos primeiramente um epítome dos eventos mais singulares da vida de Eustáquio, e então, mostraremos uma das páginas da história eclesiástica, de cuja verdade não há razão para duvidarmos.

 

2

Os romanos eram, desde o nascimento de sua dinastia, um povo bravo e belicoso; os heróis que os guiaram às batalhas e às conquistas eram homens de consumada habilidade c inteligência, c acham-se merecidamente imortalizados nas páginas da história. Nos tempos antigos, a arte da guerra era grosseira c rudimentar, e toda a existência de um exército dependia da habilidade de seu general. Ele tinha de dirigir onde não havia ordem, nem inteligência, nem julgamento, a não ser aquele que lampejava em sua mente superior; ele movimentava a poderosa máquina de força viva e brutal, de acordo com a sua vontade; os espíritos mais rudes e selvagens eram cimentados juntos, na irresistível falange, por um único elemento: a confiança em seu líder. A sua destrefl valia mais para o exército que número, posição ou coragem. Foi por isso que César, um dos maiores guerreiros do passado, declarou temer mais um general sem exército que um exercito sem general. Eustáquio, ou Plácido (nome pelo qual era mais conhecido), foi um dos grand generais do exército romano, no início do segundo século.

Seu nome e sua influencia eram notórios entre os soldados, tanto por causa de sua virtudes quanto por sua capacidade e triunfes militares. Todos o admiravam por sua brandura e seu amor à justiça e à caridade. Ele era um pai para os soldados, e tratava-os com mansidão e justiça, virtudes desconhecidas da bárbara soldadesca, mas apreciadas no momento em que a sua influência benigna era sentida. Ele era generoso e caritativo com os desafortunados, e apesar de pagão, notavelmente virtuoso. A verdadeira grandeza é incompatível à propensão brutal do homem. As virtudes e a posição exaltada de Plácido atraíram os homens mais conspícuos da época, como se fora uma estrela solitária brilhando através da massa escura de nuvens, numa noite tempestuosa. Não admira que ele fosse assinalado pela Providência como objeto de graça especial, e instrumento de grandes milagres, pois que o Todo-Poderoso ama a virtude e a ordem, ainda que praticadas por um gentio, e nunca falha em recompensá-lo no devido tempo.

Talvez tenha sido a caridade de Plácido, algum ato silencioso de benevolência em sua vida, que tenha movido o coração de Deus a fazer dele um vaso escolhido. Certo dia, como era de costume, Plácido saiu a caçar. Foi com alguns oficiais da cavalaria, de que era comandante, ao cume do monte Sabino, onde toparam com um bando de belos antílopes. Dentre eles, um de maior porte e beleza atraiu a atenção de Plácido, que se pôs a persegui-lo com todo o ardor da caçada. Com o entusiasmo somente conhecido dos caçado­res, ele logo separou-se dos companheiros, e transpôs colinas e corredeiras, e esteve à beira dos mais perigosos precipícios. Plácido não conhecia perigos; não estava acostumado a derrotas. Prosseguiu, por montanhas e vales, até alcançar a sua presa numa ravina deserta, não muito longe do local onde hoje se acha a pitoresca vila de Guadanolo. Estes foram o local e o momento destinados por Deus para iluminar com a luz de Cristo a mente do grande general. 0 antílope estava na ponta de uma rocha, acima dele. Enquanto olhava para o animal. Plácido ouviu uma voz:

- Plácido, sou Jesus, a quem serves sem conhecer. A tua caridade e os teus atos de benevolên­cia chegaram até mim. Um homem justo, amado por suas obras, não deve servir ao Diabo e falsos deuses, que não podem dar vida nem recompensa.

Aturdido e atemorizado, Plácido desmontou. Ele não podia desviar os olhos da luz brilhante à frente - mais brilhante que o sol, Finalmente, ganhando coragem, bradou num tom exaltado e trêmulo:

- "Que voz é esta? Quem está falando? Revela-te para que eu possa conhecer-te. Novamente a voz celeste caiu-lhe aos ouvidos:

-  Sou Jesus Cristo, que do nada criou os céus e a terra, que a tudo deu forma, e fez a luz surgir da escuridão. Sou aquele que criou a lua e as estrelas, e fez o dia e a noite; que formou o homem do pó da terra, e para a sua redenção, vim em corpo humano, fui crucificado, e ressuscitei dentre os mortos ao terceiro dia. Vai até a cidade. Plácido, procura o pastor dos Cristãos, e sejam batizado.

Um raio - o último raio da luz brilhante que lhe deslumbrara os olhos - penetrou-lhe o coração, e ele entendeu tudo. Plácido permaneceu quatro horas de joelhos; sua primeira oração a Deus, oração fervorosa e plena de gratidão. Quando se levantou de sua profunda adoração, percebeu que estava tudo escuro e em silêncio. O sol desaparecera atrás dos montes, e o seu cão e o seu cavalo fiéis, porém cansados, dormiam atrás de si. Plácido levantou-se, à semelhança de Paulo na estrada de Damasco, com a coragem de um leão para proclamar a verdade de Cristo e a misericórdia de Deus. Despertou o cavalo, e retomou lentamente à cidade, através das passagens desoladas dos montes.

Entrementes, os alarmas pela segurança de Plácido já haviam chegado até sua casa, na cidade. Ele fora abençoado com uma nobre e amável esposa; sua união vinha-se fortalecendo por longos anos de paz. A semelhança de suas almas virtuosas, seu lar era um cenário de felicidade domestica raramente encontrado nos círculos pagãos. A ausência inusitada do general causara à esposa imensa ansiedade; durante toda a noite, ela esperara ouvir-lhe os passos na soleira da porta, mas a alvorada pardacenta já rompia no horizonte, e ainda nem sinal de Plácido.

Despertando de um repouso momentâneo e de um sonho ilusório, ela encontrou a escrava esperando que retornasse à consciência para entregar-lhe uma mensagem.

—  Nobre senhora, Rufo, que acompanhou o general à caçada, retornou e pede uma audiência..

— Rápido, rápido, Sílvia, traze-o à minha presença.

Ela saltou do leito, encontrou o soldado veterano à porta, e tremendo de expectação, falou-lhe:

— Dizei-me, Rufo, tu sabes tudo sobre o general. Tu és um verdadeiro soldado, e mantém-te ao seu lado nas horas mais escuras. Como pudeste separar-te dele? Fala, eu temo o teu silêncio.

O veterano inclinou-se sobre a alabarda, uma arma constituída de uma longa haste de madeira rematada em ferro largo e pontiagudo, atravessado por outro em forma de meia-lua. Após pequena pausa, falou em voz profunda e solene:

— Nobre senhora, não desejo atiçar-te o receio das mais escuras calamidades, mas temo pela segurança do general.

— Eu te conjuro. Rufo, conta-me tudo! — exigiu ela freneticamente. — 0 seu cavalo de confiança caiu e o lançou num precipício? Os lobos das ravinas alimentaram-se de seu corpo lacerado?

—  Nenhuma dessas calamidades, nobre senhora, sucederam ao bravo comandante — interrompeu Rufo. — Achamos que ele perdeu o caminho nas montanhas, e deverá estar aqui antes do meio dia. Eu estava ao seu lado, quando um grande antílope saiu do matagal; os cães o perseguiram, e os nossos cavalos voaram pela encosta áspera da montanha. 0 antílope era o maior que já vimos nestas paragens, e o mais veloz também. Nossas cavalgaduras inferiores logo ficaram para trás, e vimos o cimo brilhante de nosso comandante correndo como unia bola de fogo através da floresta. Logo o perdemos de vista, perto das ravinas do Marino. Paramos à sombra de uma figueira, esperando a cada momento ver o nosso galante comandan­te retornar com a presa de sua bela caçada. As horas passaram-se vagarosamente; esperávamos ansiosos ouvir o som de sua trompa. Nenhum cachorro voltou com a boca suja de sangue para assegurar-nos da vitória; cada momento de ansiedade fazia pulsar mais forte o martelo da vida. Procuramos nos lados da montanha, e chamamos em alta voz o nome de nosso general; não houve resposta, a não ser os ecos que quebravam a quietude do bosque das oliveiras.

Tremendo por sua segurança, corri de volta ao quartel-general, e pedi um destacamento de cavalos para percorrer a montanha. Nota, nobre dama, como foi que me separei do general. As correntes de vida do sangue do meu coração não me são mais preciosas que a segurança do meu senhor. Rufo não deve servir sob outro comandante além de Plácido.

Enquanto Rufo ainda falava, ouviu-se do lado de fora um alvoroço, e alguns escravos empolgados entraram correndo, anunciando a chegada do general. Esgotado, e coberto de pó, ele apeou da montaria. Em silêncio, abraçou a esposa, e fazendo um sinal para que todos deixassem o aposento, voltou-se para ela:

— Estela, tenho uma história muito estranha para contar-te. Tu sabes que os terrores da guerra e o esfacelar-se dos impérios foram sempre a minha ambição c a minha alegria. Antigamente, eu nada temia; não conhecia Deus além de minha espada. Mas desde a última vez que me sentei à sombra destas torres ancestrais, e de teu sorriso amoroso, uma mudança operou-se em meus sonhos de ambição. Como o sol nascendo de uma grossa camada de nuvens, uma visão do mundo invisível passou diante de meus olhos: uma Deidade maior que os deuses do Império manifestou-se a mim. Estela, sou um cristão!

Com muitas lágrimas, ele descreveu a visão que tivera: a miraculosa intervenção de Deus para trazê-lo à fé. Naquele dia. ele pós em ordem suas obrigações, a fim de entregar-se generosamente à vocação divina. Mensageiros foram confiados de conduzi-lo às catacumbas, onde o bispo cristão dirigia a Igreja de Deus. Apesar das objeções de sua tímida esposa, que temia as terríveis conseqüências envolvidas na profissão do cristianismo naqueles dias de horror, ele apressou-se, na primeira hora após o anoitecer, às criptas do Caminho Salariano. Dentre as sublimes lições que lhe foram ensinadas na visão, nas montanhas, estava a seguinte:

 

"Deixando ás misericórdias de um momento as vastas preocupações de uma cena eterna".

 

E provável que as terríveis perseguições de Domiciano tenham sido tão somente amaina­das, nesse tempo. Os cristãos eram forçados a abrigar-se da fúria da tempestade nas catacumbas. c enquanto, com a permissão de Deus, não podiam pregar publicamente a mensagem da graça e ua redenção, Deus lhes supria o ministério pelas operações interiores da graça, e dava aos seus apóstolos banidos a consolação de uma colheita mais abundante. Se, conforme imaginamos, 0 martírio de Eustáquio só ocorreu cerca de dezesseis anos após o seu batismo, Trajano era o operador nesse tempo; sobre o caráter de seu reinado, já comentamos na história de Inácio.

O pastor cristão abrigara-se das tempestades da perseguição numa cripta, nas catacumbas da Via Salara. Deus, em sua misericórdia, informou-o, numa visão, sobre a conversão de Plácido. O pastor estava ajoelhado sobre a lápide marmórea do túmulo de um mártir, e uma pequena lâmpada a óleo lançava uma luz fraca e trêmula sobre as lajes sepulcrais. O silêncio desses corredores dos monos era quebrado apenas pelo suave murmúrio das orações, ou pelo eco abafado dos martelos e machados dos coveiros. De repente, o servo de Deus viu uma das paredes desaparecer de suas vistas, e em lugar dela, surgiu uma tocante cena passada nos Apeninos. Na ponta de uma rocha, estava um belo antílope, e em meio ao clarão que cercava o lugar, um general romano orava ajoelhado. A visão desfez-se rapidamente, e o líder cristão, compreendendo que a graça divina havia sido revelada a uma nobre alma, permaneceu um longo tempo em poderosa oração.

Quando a noite envolveu a cidade, um grupo misterioso, espessamente velado e oculto por grandes capas, passou pelo portão Salariano. Nenhuma interrogação foi feita, porque a capa militar de Plácido era uma garantia de proteção. Duas crianças, de três e cinco anos, agarravam com temor infantil as vestimentas da mãe, e seus passinhos ligeiros sobre o pavimento maciço harmonizavam musicalmente com as passadas solenes de seu pai militar. Em silêncio, passaram pelas habitações imponentes, que adornavam ambos os lados da estrada, e logo alcançaram o suave declive conhecido pelos cristãos antigos como Clivum Cumeris. O guia conduziu-os através de longos e estreitos corredores, e introduziu-os na presença do líder cristão, que abraçou Plácido como se o conhecesse havia muitos anos.

Podemos imaginar a alegria com que ele fez passar pelas águas batismais o general romano e sua família. Foi nessa ocasião que Plácido recebeu o nome de Eustáquio; sua esposa passou a ser chamada de Teopista, e os dois filhos, Ágapo e Teopistão. Todos os nomes derivavam-se do grego, expressando honra a Deus. As palavras do sacerdote à família recém-convertida foram para que tomassem corajosamente a cruz, e a suportassem como fizera o seu Senhor crucificado; eles haviam sido chamados a glorificar a Deus nos dias de dificuldade, e os cristãos são provados na fornalha da aflição; "por meio de muitas tributações devemos entrar no reino do céu'1. Suas palavras foram proféticas: no próximo capítulo veremos Plácido sendo provado, e declarado fiel.

 

3

 

Deus prova aqueles a quem ama. Havendo escolhido a Plácido como um vaso para a sua glória, provou-o por uma série de aflições, que fizeram a paciência desse grande servo brilhar mais que qualquer outra virtude. Seus biógrafos têm-no comparado ao patriarca Jó. Mas aquela luz que lhe penetrou o coração, ensinou-lhe o valor secreto das provas e aflições.

Aquele que agora era o seu Senhor e Modelo vivenciara muitas dores e angústias; e o discípulo não é maior que o Mestre. Uma vida de facilidades, um colchão de plumas, roupas de seda, e ornamentos de ouro e pedras preciosas não são a armadura que distingue os soldados do Cristo crucificado. Quando experimentamos os leves e passageiros sofrimentos da vida, devemos lembrar que eles são para a glória de Deus e aperfeiçoamento de nossa fé.

Após ser batizado e recebido na Igreja, Plácido retornou ao monte Sabino. onde tivera seu encontro com Jesus. Fez questão de agradecer a Deus naquele local, para ele, memorável. O Altíssimo concedeu-lhe, então, outra visão que, ao mesmo tempo em que o consolava, mostrava-lhe as provações que o aguardavam.

Plácido mal retornara ao lar depois disso, quando a tormenta abateu-se sobre ele, esmagando-o de todos os lados. A triste narrativa de suas provações despertará compaixão até nos corações mais endurecidos. Em poucos dias, Plácido perdeu todos os seus cavalos e gado; cada ser vivo de sua casa, até mesmo os empregados domésticos, foram varridos por uma peste virulenta. A temível melancolia que a morte espalhou à sua volta, o mau cheiro das carcaças insepultas, e a insalubridade da atmosfera pútrida obrigaram-no a deixar a casa por algum tempo; e isto foi a fonte de novas aflições. Durante sua ausência, ladrões entraram-lhe na casa e roubaram tudo o que possuía, reduzindo-o à absoluta pobreza. Por esse tempo, a cidade estava regozijando e celebrando o triunfo dos exércitos romanos sobre os persas. Plácido não pôde tomar parte nessas festividades, e vencido pela tristeza, o desapontamento e a vergonha, combinou com Teopista, sua esposa, irem viver num país desconhecido, onde ao menos pudessem carregar a sua dor e pobreza sem o insulto cruel dos amigos orgulhosos e insensíveis.

Seguiram o caminho para Ostia, e lá encontraram uma embarcação prestes a partir para o Egito. Eles não possuíam dinheiro para a passagem, mas o capitão do navio, homem mau e cruel, vendo a juventude e beleza de Teopista, sentiu nascer no coração uma paixão impura: permitiu então que subissem a bordo, pensando num modo de satisfazer seus desejos pecaminosos homem nada sabia da bela e sublime virtude da castidade numa mulher cristã. E quando viu-se tratado com o desprezo da virtude indignada diante de uma sugestão cochicha­da de infidelidade, retorceu-se em seu desapontamento, e pensou numa vingança. O Diabo sugeriu-lhe um plano. Chegando à costa da África, o capitão exigiu novamente o pagamento das passagens, e intimou Plácido: se ele não pagasse, ficaria com Teopista como refém. Ele foi enviado à terra com seus dois filhinhos desamparados, enquanto sua bela e fiel esposa ficou detida no navio, que logo zarpou para outro porto.

Pobre Plácido, sentiu as lágrimas quentes deslizando-lhe pela face, enquanto via as velas da pequena embarcação enfunarem-se com um vento favorável, e levarem para longe o maior tesouro que ele possuía neste mundo. E viu a si mesmo numa terra estéril e inóspita, exilado, pobre e solitário. Se as suas fiéis legiões soubessem de sua triste sorte, como suas espadas confiáveis relampejariam em vindicação de seu general injuriado! Olhando para os filhos, gora sem mãe, ele puxou-os para junto de seu coração partido, e apontando com um dedo trêmulo o navio que agora era uma mancha branca no horizonte azul, afirmou:

- Vossa mãe foi dada a um estranho.1

Apertando a testa com a mão, Plácido curvou-se e chorou amargamente. Não há pontada de sofrimento humano tão pungente como a afeição frustrada, e ela é mais agudamente sentida quando o objeto de nosso amor é entregue não à morte, à matança, ou à penúria, mas à infâmia e à desonra. Ate mesmo os pais pagãos de Virgínia preferiram cravar-lhe no coração um punhal a deixá-la viver em desonra.

Contudo, "melhor é o homem paciente que o bravo". O homem capaz de suportar provações e infortúnios é maior que o herói do campo de batalha. Recordando suas promessas a Deus na ravina dos Apeninos, Plácido imediatamente reprimiu seu pesar; levantando-se com uma determinação como a de Jó, e tomando os dois filhos pela mão, adentrou aquela região com um coração valente e resignado. Deus, porém, tinha outras aflições para prová-lo ainda mais.

Plácido não havia ido muito longe, quando topou com um rio bastante alargado por chuvas tardias. Era um rio vadeável, mas vendo que seria perigoso levar as duas crianças juntas ele decidiu levar uma de cada vez. Deixando na margem a mais velha, entrou na corrente com a mais jovem. Mal alcançara a margem oposta, quando o grito da que ficara atraiu-lhe a atenção. Olhando para trás, viu um leão pegando a criança com a boca e arrastando-a para devorá-la. O pai aflito depositou á margem o filho que levava nos braços, e sem temer o perigo, mergulhou uma vez mais na correnteza. A angústia deve ser tremenda, quando faz um homem desarmado acreditar que pode caçar e lutar com o rei da floresta.

Mal ele saíra da água, quando a outra criança foi atacada por um lobo.2 Esta última visão paralisou-lhe a coragem; ele não pôde dar mais nem um passo. Caiu de joelhos, e apelou ao grande Deus que, sabia ele, dispusera todas as coisas. Com o fervor de sua fé iniciante, e a dor de um pai desolado, orou pedindo paciência, e que nenhuma blasfêmia lhe saísse dos lábios; que nenhum receio viesse minar-lhe a adoração. O general permaneceu algum tempo de joelhos, e sentiu o bálsamo da consolação celeste gotejar-lhe gradualmente sobre a alma angustiada. Somente a fé pode quebrar as barreiras do tempo, e levar a alma a antecipar a união que a imortalidade trará.

Plácido confiara a família a Deus, e sabia que eles estavam felizes. Quanto a si, determinou suportar virilmente os poucos dias de sofrimento que a Providência lhe designara. Levantou-se uma vez mais da oração, fortalecido e consolado, mais separado de toda consolação humana, e mais unido a Deus. Logo deixou aquelas paragens tão dolorosas, e escapou para outra parte do país.

A seguir, encontramos Plácido como um pobre trabalhador numa fazenda chamada Bardyssa. Mas esta é a última parte da escura noite de sua provação; o crepúsculo que precede o glorioso nascer do sol. O Deus Todo-poderoso havia provado o seu servo com a mais severa adversida­de que pode sobrevir a um homem; no redemoinho da aflição, Ele fez voar todo o seu conforto temporal, a sua felicidade doméstica, e a sua afeição paternal. E o vaso escolhido, novo na fé, foi achado fiel, merecedor da coroa.

Alguns anos haviam se passado desde que Plácido perdera a esposa e os filhos, e ele passara todo o tempo ignorado, em trabalho, oração, solidão, subindo cada vez mais alto na escada da perfeição, e em união com Deus. Chegara, porém, o tempo de sua recompensa pelo mover da mão de Deus, para quem não há acaso, foram-lhe restituídos o conforto t a honra que antes possuía. Foi novamente posto à frente do exército romano, e devolvido aos braços de sua esposa e filhos, para nunca mais ser separado, nem mesmo pela morte, pois todos reunidos na alegria infindável do céu, pela morte gloriosa do martírio. Sigamos o dos eventos que conduziram a este resultado grandioso c consolador.

 

4

 

A grande capital do Império Romano encontrava-se em total comoção. Notícias do leste diziam que os persas, e outras nações, haviam atravessado a fronteira, e estavam devastando tudo diante de si. Os veteranos poliam as espadas, e exércitos de jovens afluíam de todas as províncias. Rumores recentes do avanço do inimigo deram um novo impulso à agitação, e uma expedição de magnitude e importância maiores que as usuais foi rapidamente preparada. A alma arrogante de Trajano, que ainda ocupava o trono dos césares, não podia tolerar, nem por um momento, a menor violação do Império, ou o arrefecimento de sua glória pessoal. Ele não perdeu tempo nem poupou despesas ao lançar-se rápida e pesadamente sobre o ousado inimigo. Mas a quem confiaria ele as legiões bélicas e o próprio destino do Império? À sua volta só via jovens e homens inexperientes.

Trajano pensou em Plácido, o grande general, ídolo do exército e terror dos inimigos, o comandante de sua cavalaria, que em tempos passados levara a maré da vitória aos mais distantes termos do Império, Ouvira boatos de que ainda estava vivo, mas afastado da vida pública. Trajano agarrou-se a esses boatos com a avidez de um homem cuja esperança malograra, e arriscou tudo numa última oportunidade. Ofereceu generosa recompensa a quem descobrisse o refúgio de Plácido e o trouxesse novamente ao comando das legiões de ferro de seu Império. Ardendo de ansiedade e dúvidas, ele foi adiando de um dia para outro a panida da expedição, esperando receber notícias de seu general favorito.3 E o soberano não foi desapontado: encontraram Plácido.

Dois veteranos, Antíoco e Acácio, partiram para as províncias egípcias, à procura de Plácido. Suas incessantes perambulações e inquirições já pareciam infrutíferas, quando, certa manhã, prestes a desistirem da busca, passaram por uma bela e bem cuidada fazenda, e avistaram, a curta distância de si, um pobre lavrador. Aproximaram-se do homem, e indagaram se não vivia por aquelas bandas um certo cidadão romano, chamado Plácido.

Os dois soldados acreditaram ter visto algo naquele homem que lhes recordava o seu general; a nobreza de sua aparência e conduta falava de alguém que já conhecera dias melhores. Eles até pensaram ver em suas feições cansadas, bronzeadas pelo sol e enrugadas pelo desgosto, alguns traços do amável semblante de Plácido. Contudo... não podia ser... Seu general um exilado? Um lavrador naquele lugar miserável? Que reverso da fortuna o teria reduzido a isto? Como poderia um homem tão importante haver sido lançado da honra e da glória à obscuridade e a pobreza?

Mas o homem com os andrajos de lavrador pobre reconhecera naqueles soldados dois dos mais bravos veteranos de suas legiões.' A lembrança das guerras e batalhas c vitórias de outros tempos cruzou-lhe a mente; o papel que aqueles dois tiveram na derrocada do inimigo, sua bravura ao seu lado nos campos de batalha, as cicatrizes recebidas nas lutas sangrentas - tudo assaltou-o num momento, despertando cada bravo sentimento de sua alma. Plácido estava prestes a correr para eles de braços abertos, mas a prudência reteve-o onde estava, e numa atitude de autocontrole, suprimiu seus sentimentos exaltados. Compondo-se dignamente com um suspiro que por si só revelava a luta dentro de si, o general perguntou: — Por que estais procurando por Plácido?5

Enquanto Antíoco relatava como os adversários haviam uma vez mais declarado guerra no leste, e que o imperador desejava confiar a expedição unicamente àquele general, e por isso enviara à sua procura, a todas as partes, os soldados que haviam servido sob suas ordens, Plácido não pôde mais conter os sentimentos. Abrindo a rude vestimenta que lhe cobria as cicatrizes do peito, mostrou-as aos dois veteranos atônitos, e revelou-lhes ser o general que procuravam. No momento seguinte, eles estavam abraçados ao seu pescoço, e derramando lágrimas de alegria.

Uma vez Roma fora salva pelo bravo Cincinato, levado de seu arado para defender a cidade ameaçada. Como esse grande chefe do passado, Plácido foi recebido com alegria pelo povo; a confiança do exercito foi restaurada, e um novo alento surgiu em todas as tropas. Combates e triunfos foram antecipados e declarados antes de serem lutados e alcançados. O imperador deleitou-se; abraçou o antigo comandante da cavalaria, ouvindo com interesse a história de suas vicissitudes, suas perdas e luto. E prendendo-lhe à cintura o cinto de ouro do comando consular, suplicou-lhe que desembainhasse uma vez mais a espada em prol do Império." 0 santo homem já havia reconhecido, na humildade e prece de seu coração, que a grande mudança vinda de modo estranho e repentino era uma disposição do amor c providência de Deus; e preparara-se. mesmo em sua idade avançada, para conviver novamente com o ruído das armas e a fadiga da guerra. Durante a sua provação e resignação nos campos solitários do Egito, o Espírito Santo já lhe revelara que logo chegaria o dia da restauração de tudo o que ele perdera neste mundo. Eis aqui o primeiro passo no cumprimento de seu sonho; vejamos como Deus realizou o restante:

Enquanto Plácido coloca em ordem o seu rude exército, e exercita seus soldados na terrível ciência da guerra, retrocedamos alguns anos, e demos uma olhada na pobre e infeliz Teopista deixada no barco daquele capitão tirano, que cruelmente a separara de seu marido e de seus filhos.

Sem dúvida, na empatia de seu coração piedoso, o leitor compadeceu-se dela em sua aflição, e esperou que alguma circunstância afortunada viesse salvá-la. Acaso o Todo-Poderoso já abandonou seus filhos quando a pureza é ameaçada? Não lhe comove o coração a inocência indefesa de uma mulher? Na história do passado, nenhuma virtude foi mais visivelmente protegida pelo céu que a castidade; nenhum vício despertou maior vingança que a castidade; nenhum vício despertou maior vingança que a impureza. A sua oração por proteção de sua inocência não apenas varou as nuvens, como arrancou dei» o raio que atingiu o opressor com julgamento.

Não tema pela virtude e fidelidade de Teopista. Deus é o seu escudo. Quem pode prevalecer contra o Altíssimo? Os meios que Ele adota para proteger seus servos são silenciosos, consoladores e misericordiosos.7 Deus não acertou o capitão com um golpe merecido, ma inspirou-lhe no coração um sentimento de ternura e piedade que o fez corar pela crueldade que fizera à jovem mãe. Mal o vento afastara a embarcação das vistas de Plácido e dos meninos, os soluços do coração partido de Teopista suscitaram um fio de piedade nos sentimentos do pagão. Ao mesmo tempo. Deus removeu-lhe os estímulos da carne, e o fez amar e admirar em sua cativa a virtude que ele jamais conhecera. A alma virtuosa é como uma árvore frutífera em florescência: libera a sua fragrância em cada brisa, e espalha na atmosfera um delicioso aroma. A sublimidade da virtude que brilhou na fidelidade da matrona cristã, e a paciência e o perdão daquela filha da desdita venceram de tal modo o capitão, que, em vez de ser seu inimigo e opressor, tornou-se seu protetor e guardião. Desembarcou Teopista no porto seguinte, e deu-lhe dinheiro e víveres para que se sustentasse por algum tempo. Ela também teve a sua cota de provações; quinze anos de sofrimento e exílio com provaram-na merecedora da alegria e da coroa reservadas para ela.

Tudo pronto, a expedição partiu para o leste. O espírito de alegria e bravura que animava lados prenunciava os maiores triunfes. Eles fluíam aos milhares pelos portões orientais da cidade, e enquanto o sol matinal refletia em sua alabardas e lanças lustrosas. as tumbas de seus monos importantes, alinhadas na Via Apia, faziam ecoar uma vez mais as canções de guerra das irresistíveis legiões do Império Romano. O líder octogenário - Plácido, o cristão -comandava a retaguarda, numa biga puxada por dois belos cavalos árabes.

E desnecessário demorar-nos sobre a narrativa, tantas vezes repetida, do triunfo romano.

As legiões despejaram-se como avalanches alpinas sobre o território inimigo, esmagando em sua passagem tudo o que se lhes opunha. Não apenas os rebeldes eram sujeitados, como a águia conquistadora estendia suas asas sobre novos domínios, e novas províncias eram acrescidas ao vasto território dos césares.

A brandura e a habilidade de Plácido sabiam transformar em bem todas as coisas; em suas conquistas, evitava a mortandade e o derramamento de sangue desnecessários. Ele perdoava livremente, e nunca retribuía a resistência de um povo corajoso com as retaliações tão terríveis das crônicas da guerra pagã.

Todo exército tem seus heróis. A campanha de Plácido estava quase no fim, quando se revelaram os seus verdadeiros soldados. Onde a conquista fora fácil, todos eram bravos; chegado porém um momento de perigo e provação, os louros da fama distinguiram aqueles que o mereciam. O exército foi surpreendido numa emboscada, mas salvo pela pronta ação de dois moços pertencentes á unidade dos númidas. Eram dois jovens corajosos, que se haviam conhecido nas fileiras e se tornado amigos. Estavam ambos vagueando fora do acampamento, quando ouviram o grito: "Às armas!"' Correram à vanguarda como leões, e animaram os companheiros. Lutaram juntos contra forças terríveis, mas suas alabardas eram manejadas rápida e habilmente, causando destruição por toda pane. Com alguns bravos companheiros, resistiram ao progresso do adversário até que o seu próprio exército ficasse livre. Uma resistência tão brava e inesperada causou pânico nas fileiras inimigas, que fugiram ao massacre. Alguns milhares foram mortos, e o exército da oposição foi tão completamente destruído! que nunca mais foi visto no campo de batalha.

O general vira tudo o que se passara, e quando a batalha chegou ao fim, mandou chamar os dois heróis que salvaram o exército, elevou-os ao cargo de capitão, e concedeu-lhes a honra de sua amizade.

O exército avançara de triunfo em triunfo, e devemos agora descortinar o cenário de nossa narrativa: uma planície agreste na costa da Arábia, onde eles estavam acampados antes dl retorno à capital. Viam-se cabanas de pescadores a beira-mar, e aqui e ali, às margens férteis de um rio, pequenas e graciosas casas cercadas de jardins c vinhedos. Dentre elas, uma destaca se pela beleza, no suave declive para o rio. Pertencia a uma pobre viúva, que vivia dos frutos de seu quintal e do trabalho de suas mãos.

O velho general, fatigado da batalha, armou aí a sua barraca, pretendendo descansar um pouco antes de empreender a fatigante viagem de volta. Junto dele ficaram os dois jovens capitães, a quem ele fizera seus confidentes, e tratava como filhos adotivos. Certamente, o ancião via na juventude e beleza dos rapazes o que os seus próprios filhos teriam se tornai se suas vidas houvessem sido preservadas. Uma atração invisível fez com que ele os amasse ternamente, não suportando que se separassem dele. Os moços também desenvolveram uma profunda amizade entre si. A semelhança nos sentimentos e disposição, o amor secreto pela virtude, e um certo traço de nobreza em cada pensamento e ação, não apenas os ligava como os laços inseparáveis da harmonia, mas os elevava na estima de quantos os conheciam.

Um dia, como de costume, passeavam eles à margem do regato. À sua volta, tudo era frescor e beleza. Os pássaros cantavam nas árvores, e as flores, que cresciam abundantemente na vizinhança, espalhavam mil odores na brisa que ondulava a superfície da água. Os dois soldados sentaram-se à sombra de uma figueira, e entabularam animada conversa.8 O mais velho era alto e bonito, e aparentava ter dezoito anos; parecia ser uns dois anos mais velho seu colega. Era um jovem de ânimo calado e gentil, e às vezes parecia absorto em pensamentos, como se uma nuvem pairasse sobre ele. O amigo já notara isto, e particularmente nesse dia, observou que, durante a conversa, ele parava e olhava distraidamente para o riacho, que corria rápido e mais volumoso, em conseqüência das chuvas que caíra sobre as montanha vizinhas. Naquela familiaridade permitida pela amizade comprovada, o mais jovem indagou do companheiro a causa de sua preocupação.

— Faz algum tempo que nos conhecemos — começou o jovem capitão —. e percebo que tens trancado no coração um segredo que me consolaria e interessaria ouvir. Conta-me a tua história, para que eu participe da tua tristeza. Tu sabes que sou teu amigo.

O outro fitou-o com bondade, ao mesmo tempo que parecia ler-lhe o semblante para ver se era de fato sincero. Depois, voltando os olhos o céu e suspirando, puxou a mão do companheiro para que se aproximasse mais. e confessou exaltadamente:

— Sim, vou contar-te uma estranha história, mas tu não deves trair-me o segredo. Sou um cidadão romano, e sou cristão.

O jovem sobressaltou-se como que abalado por um trovão, mas o outro, impedindo-o de dizer uma palavra, e chamando-o pelo nome, continuou num tom majestoso e cheio de bondade:

— Embora eu tenha me alistado no exercito romano na mesma província que tu, não nasci lá. Meu pai era um general romano, e homem de grande apreço. Lembro-me de um dia, quando eu tinha cinco anos, ele saiu para caçar, e só voltou na manhã seguinte. Chegou em casa agitado e disse coisas que fizeram minha mãe chorar. Na noite seguinte, quando estava tudo escuro e silencioso, meu pai levou-me a mim e a meu irmãozinho, que tinha apenas três anos, a uma caverna sombria. Depois de passarmos por corredores escuros e sinuosos, entramos num compartimento iluminado, Lá estava um homem idoso, sentado numa cadeira de pedra, usando no pescoço uma bonita estola. As paredes do pequeno quarto estavam cobertas de figuras de homens, peixes e cordeiros. 0 venerável ancião conversou com meu pai e minha mãe por um longo tempo. Não recordo todas as suas palavras, mas ele falou do Deus verdadeiro, desconhecido dos pagãos, e de todas as coisas boas que Deus fizera pelo homem: como o amara e morrera por ele. e lhe prometera felicidade eterna. Meus pais ficaram visivelmente afetados, e meu pai chorou novamente, como se tivesse feito algo errado. Então o velho batizou-nos nas águas, e deu-nos nomes diferentes. Recebi o nome de Agapo. Quando, após várias orações, deixamos aquele lugar, meus pais pareciam regozijar-se. Sem poder parar com a sua historia, o jovem continuou:

- Logo depois, meu pai perdeu tudo o que possuía; seu gado e seus cavalos morreram de uma terrível moléstia: ate os escravos e servos morreram. Deixamos então a nossa casa, e fomos para uma vinha fora da cidade. Em sua ausência, meu pai foi roubado de tudo o que possuía, e reduzido à pobreza. Então, uma noite, ele levou minha mãe, meu irmão e eu ao litoral, c embarcamos num navio, passando quinze dias no mar agitado. Quando aportamos, meu pai, meu irmão e eu fomos enviados à terra, mas minha mãe ficou no navio, que partiu imediatamente. Oh! Nunca esquecerei a aflição de meu pobre pai naquela ocasião.

O jovem enterrou o rosto nas mãos, e chorou por algum tempo. Enquanto isso, uma lágrima passou despercebida pela face de seu companheiro. Levantando novamente a cabeça, ele continuou a história em meio a lágrimas e profundos suspiros.

- Meu pai pegou meu irmão no colo, enquanto puxava-me pela mão, e entramos naquela região. Chegamos a um rio de correnteza veloz, e como meu pai não podia levar-nos a ambos de uma vez, mandou-me ficar à margem, enquanto levaria primeiro meu irmãozinho, e prometeu voltar para buscar-me. Entretanto, atravessava ele o rio, quando... Oh! Nunca esquecerei! Um leão saiu do mato e agarrou-me.

Um estremecimento passou pelo jovem ouvinte. Sem controlar a agitação, ele gritou:

— Que estranho! Mas conta-me, como foste salvo?

O moço parecia em grande comoção. Algumas palavras vieram-lhe aos lábios, mas ele as reprimiu e ouviu com uma ansiedade inerte o restante da narrativa.

— Bem — prosseguiu o jovem capitão —, gritei por socorro, mas era tarde demais. O leão apanhou-me com a boca... ainda tenho no corpo as marcas de seus dentes... e carregou-me para a floresta. Afortunadamente, passavam por ali alguns pastores. Ao ver-me presa do leão, soltaram os cães atrás dele. Um dos cães agarrou-me e pôs-se a puxar-me, então o leão me largou e agarrou o cão, indo embora com ele. Os pastores levaram-me a sua casa, onde uma boa mulher deitou-me na cama e cuidou de mim. Recuperei-me e cresci naquela casa, mas nunca mais vi meu pai e meu irmão.

Apertando o braço do amigo, e com os olhos rasos d’água, ele completou:

— Não admira, meu amigo, que eu esteja triste. Este riacho, estas árvores, e esta planície agreste onde estamos acampados recordam-me aquelas terríveis cenas de minha infância. Acaso posso esquecer o dia em que perdi pai, mãe, irmão, tudo?

Ele não pôde dizer mais nada; escondeu novamente o rosto nas mãos e chorou amarga­mente.

Não obstante, observara, enquanto contava sua história, que seu amigo ficara cada vez mais emocionado, e de tempos em tempos deixava escapar frases desconexas e expressões de surpresa, como, "Estranho! Deve ser! Oh. céus!".

Após um instante de silêncio, o mais jovem gritou com força e exaltação:

— Ágapo, acho que sou teu irmão!

—  Como? — espantou-se o outro. — Fala! Dize o que estás pensando, ou... Tu estás menosprezando o meu sofrimento?

— Também perdi meus pais na infância — replicou rapidamente o jovem. As pessoas que me criaram contavam que haviam me salvado de um lobo perto do rio Cobar, e que eu era de uma nobre família romana, por causa desse ornamento de ouro que trago ao pescoço.

Enquanto ele levava a mão ao peito para pegar o adorno, o outro pôs-se de pé num salto, e gritou:

— Mostra-o! Ele tem gravado o nome Teopisto e o mês de março?

— Sim, aqui está.

Agapo, reconhecendo a medalha que sua mãe lhes pendurara ao pescoço na manhã seguinte ao batismo, tomou nos braços o jovem, exclamando:

— Meu irmão! Meu irmão!

As explicações não apenas colocaram o fato além das dúvidas, como puseram juntos os dois irmãos durante horas, abraçando-se, volta e meia, com lágrimas de afeição. Contaram um ao outro todas as minúcias de suas vidas. Teopisto fora salvo do lobo por um lavrador, que o criara como um de seus filhos. Eles cresceram separados por poucos quilômetros, e não o sabiam, mas Deus, cujos caminhos são inescrutáveis, reuniu-os no exército romano, a fim de restitui-los aos pais como recompensa por sua virtude. A alegria dos jovens estava para ser acrescentada por outra descoberta ainda mais consoladora e extraordinária. O leitor ja sabe: o general era seu pai.

Quando a comoção do primeiro momento amainara, concordaram em procurar o general e informá-lo da incrível descoberta. Encontraram o ancião em sua tenda, sentado à mesa tosca. a face oculta nas mãos, absorto em meditações.

O mais velho correu para ele, e anunciou que tinha notícias surpreendentes e alegres para dar-lhe. O general levantou a cabeça; seus olhos estavam úmidos, e uma nuvem de melancolia sobreava-lhe a fronte. Olhando com um sorriso paterno os jovens animados, convidou:

— Então falai, meus filhos, pois a vossa alegria será a minha. A felicidade dos outros faz-nos esquecer nossas tristezas; vossas palavras virão como um raio de sol para o meu coração melancólico. Ah, este dia me trouxe tristes reminiscências... É o aniversário de uma série de infortúnios que me privaram de minha esposa e meus filhos.

Plácido fez uma pausa, e erguendo ao céu os olhos turvos de lágrimas, exclamou: — Mas é a vontade dEle, que reina sobre tudo. Ele deu, e Ele tomou; bendito seja seu santo nome!

Os jovens estavam estupefatos. Era a primeira vez que o velho general orava ao Deus verdadeiro diante deles. Mil pensamentos cruzaram-lhes a mente; não sabiam se primeiro deviam declarar que também eram cristãos, ou relatar a descoberta que fizeram. Amavam o velho como a um pai. e seu amolecido coração derreteu-se uma vez mais ao ver sofrer o veterano. Algumas explanações ligeiras bastaram para revelar a verdade: estavam falando com seu pai! No momento seguinte, os jovens estavam abraçados ao seu pescoço, e o velho comandante apertava ao peito seus filhos valentes.

Deixe a imaginação pintar o quadro que pena alguma pode desenhar. Um momento de alegria como este pesa mais que os anos de negras provações. Todavia, a noite escura e tempestuosa de Plácido já ia passando, e os raios luminosos da recompensa brilhavam sobre ele. Uma luminosidade que, pelo resto de sua vida, seria nublada, exceto por um momento: o momento que o introduziria na claridade da beatitude eterna e imutável - o momento em que sofreria a morte do martírio pela fé em Cristo.

 

5

 

Enquanto tinham lugar os eventos que relatamos, uma visível comoção envolvia o acampamen­to. Um mensageiro chegara em grande pressa. Trazia a notícia da morte de Trajano, em Selinonte (uma cidade da Cilícia), e da eleição de Adriano pelo exército. A eleição fora confirmada pelo senado, o exército de Plácido recebera ordens de retomar imediatamente para reunir-se em triunfo nas celebrações fúnebres do imperador falecido. Os soldados sob o comando de Plácido haviam estado ausentes por quase dois anos, e achavam-se esgotados pelas privações da guerra. Saudaram com deleite a notícia de seu retomo. Os gritos ensurdecedores, anunciando a boa nova, alcançaram a tenda de Plácido antes que o correio chegasse até ele. O mensageiro, com os pés feridos e cobertos de pó, entregou ao general um rolo de pergaminho, onde estava escrito:

 

"Aprouve aos deuses elevar-nos ao trono do Império Decretamos uma marcha triunfal pelo exercito de Plácido, e ordenamos ao bravo general retomar imediatamente a capital"

— Adriano

 

O general segurou por um momento o pergaminho, completamente distraído. Erguendo lentamente os olhos ao céu, proferiu:

— Tu estabeleces, brilhante Sol de minha esperança. Aqueles destinos prefigurados em cochichos proféticos são rapidamente feitos realidade. Eia! Para Roma! Ao triunfo! Ao martírio!

Ordenou então que desarmassem as tendas e se preparassem para a marcha geral no dia seguinte. Dispensando a todos de sua tenda, permaneceu sozinho, em comunhão com Deu agradecendo-o pela felicidade daquele dia. Percorria rapidamente a tenda; a visão do martírio futuro passando diante dele. Podemos ouvir, na imaginação, o tom majestoso de seu ardente solilóquio;

"Eia! Ao triunfo! Da carruagem de ouro ao túmulo — subir ao cume brilhante do monte Capitólio, em meio aos gritos de blasfêmias contra Deus, que laceram os céus — acender os fogos do sacrifício impuro aos demônios da idolatria!? É preferível que Plácido seja lançado à pira ardente, e seja ele mesmo a vítima.

"Nos sonhos da ambição jovem e mal-orientada. desejei a honra que agora está ao meu alcance, mas à luz do destino mais elevado que se segue, ela não passa de bela sombra que flutua diante da imaginação enfeitiçada. como as bolhas douradas da correnteza, que se desfazem no ar quanto tentamos pegá-las.

"Meus filhos! Beberete vos do meu cálice? Passeareis na mesma carruagem e sorvereis um copo de alegria terrena, até alcançardes o átrio do templo de Júpiter. Então sereis amarrados à mesma estaca; as chamas de nossa pira funerária enviarão nosso espírito livre à terra do triunfo eterno, onde o brado de alegria real soará com as congratulações dos coros celestes pela nossa vitória cristã!

"Pobre Teopista! Sua nobre alma ainda está esperando para completar o holocausto! Estaria sendo forçada na casa de algum vilão?

 

"Quem sabe você morra na juventude: ela pode ser curvada com aflições bem mais pesadas que a tumba poderosa, que pesou sobre seu pó suave - uma nuvem pode colher sua beleza, e uma melancolia em seus olhos escuros, profetizar a sentença do céu aos seus favoritos, morte prematura.”

 

Plácido foi interrompido por um servo anunciando que a pobre mulher, dona do jardim onde ele armara sua tenda, desejava vê-lo. Ele não era um homem orgulhoso e austero, que deixasse os assuntos dos pobres serem resolvidos por oficiais sem coração. Era acessível ao mais rude soldado de seu acampamento, bem como ao mais elevado oficial. Com um gesto indicou que trouxessem a mulher.

Ela parecia avançada em anos, e vítima de muito sofrimento. Sua compleição enfraquecia e a simplicidade de seu vestido falavam de necessidade e pobreza; contudo, suas maneai eram nobres. Seus olhos injetados revelavam o quanto havia chorado. As lágrimas haviam deixado sulcos em sua face; seu semblante, no entanto, em toda a sua terna expressão de cuidados e dores, evidenciavam traços de beleza, nobreza, e inocência. Havendo entrado na tenda, ela caiu de joelhos diante de Plácido:

— Grande chefe c líder dos exércitos de Roma! Peço-te que te compadeças do sofrimento de uma pobre c desafortunada mulher. Sou cidadã romana. Alguns anos atrás, fui separada de meu marido e filhos, e trazida para este lugar à força, para propósitos ilícitos. Mas empenho minha palavra, perante o senhor e o céu. nunca deixei de ser fiel a meu marido e a meus filhos.

Estou aqui no exílio, em tristeza e miséria. Suplico-te, pelo amor que o senhor tem por tua esposa e teus filhos, leva-me de volta a Roma, aos meus amigos, aos meus..:10

Ela não pôde dizer mais nada. Em sua exaltação, pôs-se de pé, apertando os dedos cruzados. e olhando fixamente para Plácido, ela... reconheceu o marido.

No momento em que ela apelara ao amor que o general tinha pela esposa, ele levou a mão à testa para ocultar as lágrimas denunciadoras de seu coração aflito. Virando o rosto, expôs uma grande cicatriz atrás da orelha. O olhar da matrona reconheceu o ferimento que seu esposo recebera na guerra judaica, e um olhar atento às feições cansadas de Plácido convenceu-a. Teopista lançou-se para ele, e com os soluços sufocan­do cada palavra, pediu:

— Dizei-me. suplico-te. tu és Plácido, o comandante da cavalaria romana, a quem o Deus verdadeiro falou nas montanhas da Itália, que foi batizado e mudou o nome para Eustáquio. e perdeu sua esposa...?

— Sim! Sim! — interrompeu-a Plácido — A senhora a conhece? Fala! Ela ainda está viva? A pobre criatura fez um esforço para jogar-se nos braços dele, mas vencida pela emoção, caiu chorando: — Eu sou Teopista!11

O corpo enfraquecido de Teopista não pode suportar o choque da descoberta repentina. Quando recuperou os movimentos, ela ainda delirava, como se diante dela houvesse passado um sonho maravilhoso. Quando lhe retornou a razão, ela indagou:

— É mesmo verdade, ou um espírito maligno cria fantasmas para enganar-me? Oh, como Deus é bom!

Uma hora se passara, e a tenda de Plácido era cenário de uma alegria raramente experimentada neste lado da vida. Quatro corações solitários e moídos foram curados: o esposo e a esposa, os pais e os filhos, após anos de separação e provações, foram postos juntos e se reconheceram; tudo isto no espaço de uma hora. O Deus Todo-poderoso não os abandonara por um momento sequer, desde que decretara as vicissitudes que os provaria; comprovando-lhes a fidelidade. sabia como recompensá-los. A alegria que Deus despeja no coração dos fiéis é uma regato da poderosa torrente de delícias inefáveis que inunda a alma dos santos. Se os cristãos soubessem como Deus zela com especial providência sobre aflitos, se imaginassem b problemas e aflições são enviados diretamente por Ele, como a dor perderia a sua ferroada! Como a amargura diminuiria, e como o desapontamento se tornaria não apenas suportável, mas uma fonte de paz interior! A alma aflita, ajoelhada humildemente diante de Cristo, é o tipo do verdadeiro cristão.

Se a história de Plácido cair nas mãos de um aflito, saiba ele, como aquela alma valente e generosa, aguardar sem blasfêmia as disposições da Providência, reprimindo até mesmo um pensamento repreensivo para com Deus. e cada murmúrio de impaciência. Tão certo como J horas de aflição e angústia são longas c escuras, o momento da recompensa virá log0: brilhantemente, totalmente desanuviado.

A maior alegria que a alma pode fruir em sua habitação terrena foi preparada por Deus para aquela família feliz. A sua união aqui duraria apenas algumas semanas. Quando o acampamento foi levantado, e o exército pôs-se em marcha para Roma, Plácido sabia, por inspiração, que estava indo para a última e mais severa luta que Deus lhe tinha reservado: o seu triunfo na morte. Triunfo sobre o eu, sobre o mundo, c sobre os poderes das trevas. Ele dedicou todo o seu tempo a orar e a instruir os filhos na sublime moralidade e doutrina da fé cristã. E pediu a Deus um favor que lhe foi concedido: já que Ele havia permitido, em sua misericórdia, abraçar novamente a família, que a felicidade de sua união não fosse, nunca mais, anuviada pela separação; se o testemunho de seu sangue fosse exigido para fortificação da fé e da glória da Igreja, que a sua esposa e os seus filhos pudessem participar do mesmo favor recompensador da graça divina.

Enquanto as legiões marcham do leste, sigamos adiante delas até a grande capital, e preparemos nosso leitor para as cenas que em breve se seguirão. A bela e comovente história do nobre general romano está para ter um fim trágico - um dos desfechos mais luzentes nas páginas da Igreja, porém um dos mais escuros nos anais da ingratidão e da crueldade paga.

 

 

6

 

O fraco e supersticioso Adriano ocupava o trono dos césares. Era homem de pouca habilidade, mas de ânimo vil, enganoso e cruel, capaz de todos os horrores que desgraçaram os reinados de seus antecessores. Mas a opinião pública estava farta da matança indiscriminada, c as mortes medonhas que encerraram a infame carreira daqueles tiranos faziam tremer o imprestável Adriano, e coibir a brutal propensão de seu coração impiedoso. Ele estava dispos­to a fazer vigorar as leis de perseguição aos cristãos, e a manchar novamente os centros de execução pública com o sangue de centenas de inocentes. Contudo, o exemplo de seu predecessor parecia ser a sua estrela guia: sob o governo de Trajano, o Império prosperara, os inimigos do leste foram derrotados, e novas províncias foram agregadas aos seus limites.

Mesmo assim, em sua política hipócrita de conciliação, homens notáveis dentre os cristãos foram publicamente executados; seu sangue foi derramado como penhor da devoção de Adriano aos demônios venerados pelo povo. Na primeira pane de seu reinado, ele punha nos deuses uma confiança supersticiosa; mas o medo. a imbecilidade, e uma piedade ridícula pareciam conflitar em seu caráter, destruindo um ao outro. A conseqüência foi que os cristãos desfrutaram de uma paz razoável em seu reinado.

Não obstante, alguns martírios ocasionais tiveram lugar. O martírio de Sinfrósia deu-se sob o reinado de Adriano, na inauguração de sua imensa habitação próxima a Tivoli. As ruínas cobertas de hera desta vila são hoje a parada favorita dos excursionistas do antigo Tibre. Dentre outros, encontramos na lista dos mártires de seu reinado os seguintes nomes: Maria, a jovem serva de Tertuliano, Alexander e Sixto. líderes da Igreja, Denis, o areopagita, e muitos outros igualmente dignos de nota. Todos concordam que a perseguição desse tempo era irregular, e dependia grandemente da disposição volúvel, impetuosa e cruel do imperador. Ela nunca foi completamente extinta, mas como brasa viva, ocasionalmente explodia em chamas, e depois apagava-se novamente.

Adriano possuía um gosto especial por arquitetura, e a tranqüilidade vivida pelo Impé­rio durante o seu reinado permitiu-lhe voltar a atenção à sua ocupação favorita. Algumas das mais belas ruínas da antigüidade, que têm suportado o peso dos séculos, ostentam a marca de seu orgulho e prodigalidade. O Tibre, o Danúbio, o Reno, e o Tine, na Inglaterra, ainda conservam em suas margens os restos de pontes e tumbas, castelos e fortificações, que olham altivamente para os rios poderosos, fluindo tão regular e majestosamente quanto o próprio tempo, sempre jovem na vitalidade da natureza. De todos os imperadores romanos, o nome de Adriano é o mais familiar aos peregrinos da Cidade Eterna. O estrangeiro chegado à Roma. em seu caminho à Igreja de São Pedro, a maior maravilha da arte moderna, cruza a ponte e passa sob o castelo de St. Ângelo; estes são os dois primeiros monumentos da antigüidade a atrair o olhar, e ambos são obras de Adriano. Séculos de guerra e devasta­ção, chuvas e tempestades de aproximadamente mil e setecentos invernos têm despojado o mausoléu de seus ornamentos, mas suas paredes maciças e indestrutíveis ainda servem de fortaleza, prisão e castelo, e como uma rocha da natureza, olha de cima as gerações que passam. Por muitos séculos vindouros, ele permanecerá ás margens do Tibre como um marco da correnteza do tempo.

 

"Volva ao molhe que Adriano erigiu no alto,

imitador imperial dos edifícios do Egito,

copista colossal da deformidade;

cuja fantasia viajada, do modelo enorme

do Nilo distante, condenou o trabalho do artista

a construir para gigantes, e para sua terra vaidosa;

recolhidas as suas cinzas, levanta este domo!

Como sorriem com alegria filosófica os olhos do observador,

Ao ver o imenso projeto que brota de tal nascimento!

- Childe Harold

 

Sobre o edifício venerável, paira agora o arco da aliança atual - o anjo de Deus embainha a espada flamejante da justiça. Ele foi erguido para comemorar a visão dada a um líder eclesiástico - um símbolo adequado do período mais notável da história romana, representando não apenas o fim de um flagelo momentâneo, mas o término dos dias sangrentos da perseguição, e o começo de um reinado pacífico para o benefício da humanidade.

No momento em que escrevemos, o sol da época de ouro de Roma já passou o meridiano e acha-se na segunda ou terceira hora de seu declínio. Contudo, o esplendor e a magnificência da cidade estão além da descrição. A região que se estende como uma arena desde o Capitólj0 e dos montes Quirinal e Piceno, até o Tibre, era adornada de ponta a ponta com teatros hipódromos. lugares para jogos e espetáculos bélicos, templos cercados com bosques de sempre-vivas, ligados um ao outro por passeios sombreados e gramados que mais pareciam veludo. Monumentos e troféus de uma brancura nevada, de toda espécie, alinhavam-se às margens do rio. A história dos triunfos da cidade, escrita em mármore e travertino, desde a coluna de Duilius, até a magnificente coluna que acabara de ser feita em memória do faleci­mento de Trajano, apresenta um cenário tão fascinante, que Estrabo, em sua descrição, afirma ser quase impossível desviar delas o olhar. Elevando-se. porém, acima de tudo isto, surgia o mausoléu de César Augusto, onde ficavam as armas da família de Juliano e de muitos outros imperadores. Quando qualquer um deles estava para ser deificado, ou acrescentado ao núme­ro dos deuses, (uma cerimônia que Adriano realizou para Trajano), seu corpo era levado com pompa e cerimônia num leito de ouro, e posto sobre uma pilha de madeira odorífera; quando as chamas começavam a subir ao cadáver, soltava-se uma águia que ali estivera presa. Sob o aplauso de milhares de pessoas, o gênio do Império, ou "deificador de homens1', elevava-se no ar rumo aos céus. Enquanto sorrimos com o sarcasmo da filosofia e o conhecimento da fé, somos tocados pela poesia e a habilidade do passado ignorante.

Um triunfo foi oferecido a Trajano por suas muitas vitórias. Ele era um homem bélico, e ia aos campos de batalha à frente de suas legiões. Foi em sua ida à Armênia que ele condenou o bispo de Antioquia. Ele escolheu Plácido para conduzir as legiões ás fronteiras sírias porque fora ameaçado de revolução no território mais importante de Partia. Por essa razão ele resolvera, caso a guerra fosse declarada, ir ele mesmo subjugar o inimigo naquela parte do Império. Aconteceu como ele previra, e ele foi à expedição, mas... Nunca retornou a Roma; morreu durante a campanha. Todavia, um triunfo foi decretado em sua homenagem, e Adriano, que era um de seus oficiais comandantes, foi declarado seu sucessor pelos soldados, e escreveu ao senado anunciando que ia, em pessoa, representar o conquistador falecido.

O triunfo era a ambição mais alta de um romano; vinha logo depois da honra divina, e excedia em esplendor a todos o espetáculos da cidade. De acordo com um costume legítimo, nenhum general era intitulado ao cargo se não houvesse matado em combate cinco mil inimigos da república, e com esta vitória, alargado o seu território. Mas aquele que tivesse a fortuna de merecê-lo, avançava à frente de seus companheiros de armas, desde o campos do Vaticano até o portão triunfal. Ali, após uma leve refeição, ele era vestido com manto triunfal; os ritos habituais às deidades postas junto ao portão eram realizados. então a procissão seguia pela Via Triunfal, as ruas ladeadas de altares de incenso, e forrai»! de flores.

Em sua bela obra Rome Under Paganism and tbe Popes, Miley descreve a procissão do triunnfo Há certos itens na formalidade da cerimônia que devemos mencionar.

Primeiro vinham os músicos de várias espécies, tocando e cantando canções triunfais; depois eram conduzidos os bois para serem sacrificados, com os chifres dourados, e a cabeça adornada com fitas e grinaldas. A seguir, eram trazidos em carruagens os espólios de guerra – estátuas, pinturas, placas, armaduras, ouro, prata e cobre, coroas de ouro e outras dádivas enviadas pelos estados aliados e tributários. Os títulos das nações vencidas eram inscritos em molduras de madeira, nas quais eram mostradas imagens ou representações das regiões e cidades conquistadas. Os lideres e príncipes cativos seguiam acorrentados, com seus filhos, parentes e cortesãos. Após eles vinham os lictores com suas machadinhas e feixes de varas entrançadas com louro, seguidos por um grande grupo de músicos e dançarinos, vestidos como sátiros, e levando na cabeça guirlandas de ouro. No meio deles vinha um palhaço vestido de mulher, cuja ocupação era insultar, com o olhar e os gestos, os inimigos derrotados. A seguir, vinha uma longa fila de gente carregando perfumes, e então, vinha o conquistador. "Ele vinha vestido de ouro e púrpura, uma coroa de louros na cabeça, um ramo da mesma planta na mão direita, e na esquerda, um cetro de marfim com uma águia na ponta. Sua face era pintada de escarlate. a semelhança da estátua de Júpiter nos dias de festa; trazia pendurada ao pescoço uma bola de ouro, contendo algum amuleto ou magia contra a inveja. Sua carruagem, onde se sentava ereto, resplandecia com o brilho do ouro e do marfim. E desde o tempo de Camilo, ou quem sabe de Tarquínio, era puxada por quatro cavalos brancos, e às por elefantes, ou outro animal selvagem igualmente singular. Era escoltado por pessoas de suas relações, clientes, e uma multidão de cidadãos, todos trajando togas brancas. Seus filhos seguiam numa carruagem junto à dele. E para que não se orgulhasse demasiadamente, um escravo carregando uma coroa de ouro e pedras preciosas, abaixado atrás dele, sussurrava-lhe de vez em quando ao ouvido: lembra-te que és homem:

"Sua carruagem era seguida pelos cônsules e senadores a pé; seus legatários e tribunos militares geralmente cavalgavam ao seu lado. Por último vinha o exército vitorioso, tanto o montado quanto o a pé, em formação marcial; os soldados, coroados de louro e ornados com as dádivas que haviam recebido por seu valor, cantavam em seu próprio louvor, e em honra ao seu general, a quem às vezes atacavam de brincadeira. Gritos de 'Ao triunfo’ rompiam frequentemente das fileiras de guerreiros, e faziam coro com as miríades de romanos, ecoando nas margens do Tibre, entre os vales das sete montanhas, e parecendo abalar o próprio Capitólio.

Chegado ao Fórum, e antes que sua carruagem começasse a subir a colina do triunfo ladeada por templos, o conquistador ordenava que os reis e chefes das nações vencidas fossem levadas pelos executores, para serem mortos na Gemônia, a horrenda masmorra ao pé do monte Capitólio.

Aproximando-se do templo de Júpiter, ele esperava até ser informado, pelos oficiais designados, que as suas ordens sanguinárias haviam sido cumpridas. Então, depois de haver incensado a Júpiter e a outros deuses por seu sucesso, ele requisitava as vítimas, sempre brancas e das pastagens de Olitumnus, para serem sacrificadas, e depositava seu diadema de] ouro no regaço de Júpiter, a quem também dedicava uma grande porção do espólio."l2

Os jogos e divertimentos do triunfo continuavam por algumas semanas, e eram celebrados no circo e no anfiteatro. Esses jogos tinham mais o caráter de flagelo que de diversão, consistindo da imolação indiscriminada de vítimas humanas e animais. O gasto do dinheiro público nessas ocasiões era enorme: nada era poupado do que a genialidade e a destreza pudessem sugerir.

Depois que a exaltação popular era amainada, e a pantomima da adulação havia deificado suficientemente o conquistador, alguns arcos ou colunas estupendas eram erigidos para comemorar, através das gerações futuras, os méritos do herói e o triunfo dos exércitos' romanos. Alguns desses monumentos ao triunfo ainda resistem em meio às ruínas de Roma, e i são, indubitavelmente, os melhores registros que possuímos da magnificência da cidade antiga.

Adriano entrou em Roma na glória emprestada do imperador falecido; os gritos de triunfo ressoavam pela cidade. Ele deificou Trajano da tumba de Augusto, e enviou a águia de seu espírito à liberdade dos céus; dedicou ao conquistador a soberba coluna erigida em sua memória, e a arena do Coliseu foi uma vez mais molhada com o sangue dos gladiadores e das vítimas. Durante os jogos, mais de duzentos leões foram trucidados, e um número imenso de cativos e escravos foi levado à morte.

Foi num anoitecer, durante essas celebrações, que se espalhou na cidade a notícia de que o exército de Plácido vinha chegando, e já se achava na Via Apia. As diversões ganharam um novo impulso, e outro triunfo e procissão foram preparados para o exército vitorioso. Não havia nada que entusiasmasse tanto o povo como o retorno de seus exércitos de uma campanha bem-sucedida. Aqueles que recordam o dia quando os heróis da Criméia desembar­caram nas praias da Inglaterra bem podem imaginar os exércitos de Roma adentrando a capital em triunfo.

De acordo com o costume, o imperador saiu ao encontro do general e o abraçou.15 Como a noite avançava, e o sol já afundara no Mediterrâneo azul, o imperador ordenou que o exército acampasse fora dos muros, onde pernoitaria, e na manhã seguinte entraria triunfal* mente na cidade. Plácido e sua família acompanharam o imperador ao Palatino. e foram entretidos com um suntuoso banquete. Ele deu ao imperador o relato de sua campanha, e falou até tarde da noite sobre suas batalhas, suas conquistas, a bravura de seus dois filhos, e a descoberta extraordinária de sua família.14

Sonoro, agudo, e alegre foi o toque da trombeta que despertou o exército sonolento na manhã seguinte. A taça da alegria para aquelas pobres criaturas foi cheia até a borda. Eles não conheciam maior recompensa pelos anos de dureza e provações, e pelas cicatrizes e ferimentos que os incapacitavam para a vida, que os gritos de uma multidão bárbara e brutal, que os aclamava ao longo da estrada do triunfo.

Quando entraram pelos portões, cada um recebeu uma coroa de louro, cujo frescor e beleza contrastavam com as feições queimadas de sol e os trajes esfarrapados. À volta do pescoço, e junto a si, levavam uma profusão de bugigangas vistosas, retiradas do inimigo vencido, para oferecer às esposas e aos filhos. Havia carroças puxadas por bois, tão lotadas de espólios, que faziam ranger o pavimento da Via Ápia; armaduras, ornamentos de ouro e cobre, animais selvagens em gaiolas, e tudo o que pudesse mostrar os usos e costumes dos povos conquistados.

O general seguia na retaguarda de seu exército, com a esposa e os dois filhos, numa agem dourada, puxada por quatro cavalos brancos. Não se via na mansa fisionomia de plácido nenhum orgulho, animação, ou alegria embriagada, comum nos conquistadores pagãos Toda aquela demonstração de regozijo e suntuosidade era para ele e sua família cristã a pompa funeral que os conduzia ao túmulo. O rei que, em seu leito de morte, ostentava a coroa e o manto real para enfrentar a morte como um monarca, era um retrato de Plácido levado em triunfo ao martírio - uma narrativa da vacuidade e instabilidade da grandeza humana, geral­mente contada nas vicissitudes da história! Ele estava silencioso e sereno; nem mesmo o aplauso ensurdecedor da multidão de espectadores ociosos, que fazia o seu nome ressoar através dos palácios e tumbas que ladeavam as ruas desde o portão Capena ao Fórum, o levava a olhar para eles com um sorriso de aprovação jovial. Plácido estava bem consciente de que, em alguns instantes, a sua fé em Cristo seria declarada, pois ele não poderia sacrificar aos deuses.

Enquanto a procissão avançava, um murmúrio percorria a turba. Perguntavam um ao outro onde estariam as vítimas. Cadê os chefes cativos? Onde estariam os escravos que geralmente vinham arrastados pela carruagem do conquistador? Onde as matronas e as filhas lastimosas da raça vencida, que juntavam à música do triunfo o seu lamento lutuoso?

Chegando ao Fórum, a procissão parou, como de costume, e os guardas e executores da prisão Mamertine procuraram em vão por suas vítimas; era a primeira vez nos anais do triunfo que os seus machados não seriam mergulhados no sangue de heróis, cujo único crime fora lutar bravamente por seus lares e sua pátria. Eles desconheciam a sublime moralidade capaz de perdoar o inimigo. Plácido perdoou-os no instante em que os vencera, e em vez de arrastar vítimas indefesas, tornando-as de sua pátria e famílias para serem imoladas aos demônios de toma, deixou seu nome no rastro de sua marcha, em bênção e amor.

Agora, porém, a procissão chegara à entrada do templo de Júpiter. Os sacerdotes aguardavam em seus mantos, e atados ao altar, viam-se os bois brancos, com os chifres dourados e guirlandas de flores na cabeça. Imensas achas ardiam no centro do templo para consumir as vítimas, e o incenso aromático era queimado em vasos de ouro. Plácido e sua família desceram da carruagem, e puseram-se a um lado. Recusavam entrar: não iam sacrificar.

Se um terremoto houvesse abalado o templo até as suas fundações, ou um eclipse repentino escurecido o sol. o choque não teria sido maior que o experimentado naquele momento pelos milhares ali reunidos. A notícia correu a multidão como fogo em rastilho de pólvora. Um murmúrio profundo e pesado, como uma vaga rompendo os seus limites, subiu da multidão que enchia o Fórum. Indignação e fúria foram as paixões que dominaram a plebe. O demônio do paganismo reinava em seus corações; piedade, justiça e liberdade eram virtudes desconhecidas. Os gritos e aplausos com que haviam aclamado Plácido o conquistador, a glória do Império, e o amado do deus marcial, tornaram-se em vaias, com gemidos e assovio. Dos templos dourados do Capitólio soavam os gritos de "Morte aos cristãos!" "Fora com os cristãos!" Mas o momento de um triunfo maior chegara para o nosso herói. Apressemo-nos no escuro cenário de crueldade e ingratidão que encerrou a carreira de Plácido neste lado vida e antecipemos o triunfo que durará para sempre.

O nobre general e sua família foram trazidos perante o imperador. Adriano estaria alegre por Plácido haver sido trazido diante dele como criminoso? Sem dúvida, via com olhos ciumentos a glória, a popularidade, a reconhecida superioridade em destreza e realizações, e o triunfo real de alguém que, poucos meses antes, era seu igual como comandante do exército, enquanto o seu próprio triunfo não passara de um arremedo - o galardão emprestado de um herói falecido, cujo panegírico ele pronunciara relutantemente, em cima da carruagem do triunfo.

Além do mais, fraco de espírito e servil, ele deve ter regozijado com a oportunidade de satisfazer o gosto da turba cruel e brutal, acostumada a ver toda autoridade como usurpação e opressão, c que odiava o cristianismo como uma virulência satânica. Do mesmo modo que Trajano, ele resolveu provar sua lealdade aos deuses com a execução pública do maior homem do Império. Ele recebeu o velho chefe no templo de Apoio e, num discurso preparado, fingiu o que nunca sentiu: compaixão por sua insensatez. Quando inquirido pelo arrogante Adriano por que não sacrificaria aos deuses. Plácido respondeu brava e intrepidamente: — Sou um cristão, e adoro unicamente ao Deus verdadeiro.

— De onde vem esta obsessão? — indagou logo o imperador. - Por que perder toda a glória do triunfo e expor à desonra a tua cabeça grisalha? Não sabes que tenho poder para mandar-te a uma morte miserável?

Plácido replicou meigamente: — Meu corpo está em teu poder, mas a minha alma pertence Aquele que a criou. Nunca hei de esquecer a misericórdia que Ele me demonstrou ao chamar-me ao seu conhecimento, e regozijo-me em ser capaz de sofrer por Ele. Tu podes mandar-me conduzir tuas legiões contra os inimigos do Império, mas jamais oferecerei sacrifício a qualquer outro deus que não o grande, poderoso, e único Deus que criou todas as coisas, estendeu os céus em sua glória, adornou a terra com suas belezas, e criou o homem para servi-lo. Somente Ele é digno de sacrifício; todos os outros deuses são demônios que enganam o homem.

Assim responderam também sua esposa e os dois filhos. Eles gracejaram com o imperador por adorar peças inconscientes de mármore e madeira. Adriano tentou em vão promessas e ameaças, e todos os argumentos tolos usados em defesa do paganismo. A fiel família mostrou-se inflexível. A argumentação de Plácido era simples, porém sincera e poderosa; e a derrota palpável de Adriano, ao tentar arrazoar com alguém dotado da eloqüência prometida aos fiéis arrastados perante os tribunais terrenos, aumentou ainda mais o seu orgulho e crueldade, bem como o seu desejo de vingança.

O Coliseu ficava a poucos passos dali; os jogos estavam em andamento; os criminosos e escravos do Império eram as vítimas diárias de seus divertimentos. A condenação de Plácido seria um golpe de astúcia para aumentar a prosperidade de seu reinado; era a completa - gratificação aos sentimentos de inveja e vingança que o demônio atiçara-lhe no coração. Ele ordenou que o general cristão e a sua família fossem expostos às bestas feras no anfiteatro.

No lugar onde se deu essa entrevista, existe hoje um convento das Irmãs da Visitação, e elas cantam em seu ofício o belo e profético salmo de Davi: "Quare fremuerunt gentes"... "Por que se amotinam as nações, e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam, e os príncipes juntos se mancomunam contra o Senhor e contra o seu ungido, dizendo: Rompamos as suas ataduras e sacudamos de nos as suas cordas. Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles" (Sl 2.1-4).

Quão sublime é a idéia sugerida pelo canto matinal pairando sobre as ruínas silenciosas e cobertas de hera do palácio dos césares, de onde partiram as terríveis perseguições à Igreja, e de onde veio tudo o que os poderes das trevas, personificados nos impiedosos soberanos de Roma, puderam fazer para destruir o cristianismo em seu início!

É provável que Plácido e sua família tenham passado aquela noite na escura e fétida prisão Marnietina. Era uma cela recortada na rocha sólida, ao pé do Capitólio, e consistia de duas câmaras, uma sobre a outra, onde só era possível entrar pelas aberturas no teto. (Hoje. uma cômoda escadaria foi ali construída.) A mais baixa e lúgubre dessas câmaras era destinada aos condenados à morte. Essas prisões existem a quase três mil anos, e juntamente com as cloacas. ou os grandes canos de esgoto da cidade, são os monumentos mais perfeitos da época augusta.

Na literatura clássica, as prisões são mencionadas como Gemônia ou Masmorra Tuliana. O historiador Saluste, que viveu cerca de cinqüenta anos antes de Cristo, falando de Catalina, escreve o seguinte: "Na prisão chamada Tuliana, há um lugar numa profundidade de três metros e trinta centímetros, quando se desce um pouco à esquerda, cercado por paredes, e com um teto arqueado; aí, a sujeira e a escuridão são terríveis1'. Não se pode imaginar nada mais medonho e lúgubre que este calabouço nos dias de seus horrores. A luz do sol nunca lhe penetrou a escuridão, e o seu fedor e sujeira produzem um veneno fatal ao organismo humano. Nesse lugar, Jugurta foi deixada a morrer de fome; aí, Vercingetorix, um líder gaulês, foi assassinado por ordem de Júlio César: e os companheiros de Catalina foram estrangulados a mando de Cícero. Nessa mesma cela, o infeliz Sejano, favorito de Tibério, encontrou uma morte merecida; e também Joras, um líder judeu, foi morto ali por ordens de Vespasiano. Contudo, ela é mais notável nos anais da Igreja pelos martírios dos heróis cristãos que pela sua antigüidade ou história política.

Muitos santos e mártires consagraram essas prisões com suas orações e lágrimas; e há em Roma poucos pontos tão santos, atrativos, e ricos em tesouros sagrados do passado, quanto a Marmetina. Ela foi reservada de modo especial para prisioneiros estatais c pessoas de distin­ção. Portanto, ainda que os Atos dos Santos não o mencione, temos razão para presumir que Plácido e sua família passaram a noite anterior ao martírio nesse horrendo calabouço. Contu­do, a fé e as consolações da oração podem lançar luz na mais trevosa das prisões; nenhuma escuridão externa ou aflição material pode arruinar a alegria da alma fiel.15

Na manhã seguinte, 20 de setembro do ano 120 de nossa era, o povo acorreu às dezenas de milhares ao Coliseu. Eles sabiam o que aconteceria; tinham ouvido sobre a condenação pelo imperador. A surpresa e a indignação diante da descoberta de que o general pertencia à odiada seita dos cristãos expressavam-se no franzir de suas frontes anuviadas. Fosse ele um assassino, um assaltante de estrada, ou um prisioneiro político, que houvesse tramado a ruína do Império, a compaixão seria exprimida por cada lábio, pedir-se-ia a suspensão da sentença, e a turba o teria salvado. Mas é sempre amarga e profunda a animosidade dos demônios que se deleitam no espírito do erro, e travam guerra contra a verdade. A intensidade deste sentimen­to hostil pode ser medida na proporção da rejeição total ou parcial da revelação.

Nenhuma nação pôde mergulhar mais fundo na idolatria, na sensualidade, e no vício que o grande império, cuja capital é considerada a Babilônia da impiedade, mencionada no Apocalipse. "Porque não temos que lutar contra carne e sangue", advertiu Paulo, L,mas( sim, contra os principados, contra as potestades. contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais" (Ef 6.12).

Não seria num anfiteatro manchado com o sangue de feras e gladiadores, e repleto de gente excitada e insensível, que se ouviria a voz da piedade e da razão. O clamor impaciente da turba denunciava os cristãos como inimigos dos deuses e dos homens, e a condenação pública do general cristão já ressoara pelas bancadas do Coliseu. A chegada do imperador foi anunciada; o zumbido das conversas silenciou; todos os olhos voltaram-se à entrada que dava para o Esquilino, especialmente reservada ao séquito real. Tão logo o imperador adentrou o anfiteatro, todos se levantaram; os lictores abaixaram a cabeça, e os senadores e as vestais curvaram-se profundamente. Os gritos de "grande", "imortal", "divino", ecoaram de todos os lados. A multidão de espectadores nada mais era que uma assembléia de escravos infames, que tremia ao aceno de seus governantes. Embora os freqüentadores do Coliseu geralmente odiassem o imperador como um opressor e tira­no, no frenesi do medo gritavam, com língua mentirosa, que somente ele era grande e poderoso. Ele carregava um cetro de marfim encimado por uma águia de ouro, e um escravo o seguia, segurando acima de sua cabeça uma coroa de ouro maciço e pedras preciosas. Tão logo o imperador se sentou, o toque agudo de uma trombeta convocou ao silêncio e ao começo dos jogos. Após a procissão dos infelizes que tomariam parte no programa de esportes cruéis daquele dia, e a luta simulada dos gladiadores, era costume iniciarem-se os esportes de destreza e habilidade; nesse dia, porém, a ordem foi mudada. O populacho clamava pela condenação dos cristãos, e o imperador ordenou que Plácido e sua família fossem expostos às feras.

Eles foram conduzidos à arena acorrentados. Estavam silenciosos e absortos em oração. O dos jogos pediu-lhes uma vez mais que sacrificassem aos deuses. Eles recusaram. Os Lentas receberam ordens de soltar algumas bestas selvagens para os devorar. Um silêncio mortal reinou no ambiente. Todos foram tocados com a firmeza da família; nenhum grito de pavor, nenhuma tremedeira, nenhuma súplica por misericórdia, nenhum coração partido ou lida frenética; tudo era calma e tranqüilidade. Os quatro esperaram de joelhos dobra­dos, e com majestosa resignação, a sentença tenebrosa. As portas de ferro dos cárceres subterrâneos rangeram em seus gonzos; dois leões e quatro ursos saltaram na arena.

Os animais não tocaram os mártires; puseram-se a cabriolar à sua volta. Um dos leões tentou enfiar a cabeça sob o pé de Plácido. Ele o permitiu. E aconteceu então a coisa mais bela e emocionante jamais vista no Coliseu: o rei das selvas pôs-se voluntariamente sob o pé do ancião desarmado, e agachou-se como se sentisse medo e reverência.

— Atiçai os animais! — gritou aos guardas o enfurecido imperador.

— Atiçai-os! Fazei-os devorá-los! — ouviu-se em cada fileira, desde os senadores e as vestais, às bancadas da plebe enlouquecida.

Não obstante, os animais voltaram aos seus guardadores, que os tiraram da arena. Outros bichos foram soltos, mas serviram apenas para aumentar a cena do triunfo: respeitosamente lamberam os pés de suas supostas vítimas. Deus, que usara um animal para trazer Plácido à luz da fé, e posteriormente usara outros como instrumentos de suas provações e tristezas, agora fazia-os expressar o seu amor e proteção aos seus servos.

A indignação e a vergonha do imperador pagão elevaram-se ao clímax; a sua raiva impoten­te e a sua crueldade natural explodiram, e para gratificar sua paixão brutal, ordenou que os mártires fossem postos no touro de bronze, e consumidos por um fogo lento. 0 touro de bronze era um terrível instrumento de tortura empregado na perseguição aos cristãos. Diver­sas pessoas podiam ser postas ao mesmo tempo em seu ventre oco, e quando o fogo era posto sob ele, tornava-se um forno, e... não é difícil imaginar a excruciante tortura que o fogo lento devia causar às vítimas vivas. Sabemos, por diversas fontes, que esse formidável instrumento de suplício foi usado tanto antes, quanto bem depois do tempo de Adriano, e que muitos fiéis foram nele martirizados.

Desse modo. Plácido e sua família receberam sua coroa. O Deus Todo-poderoso desejou mostrar, através de um grande milagre, que era pela sua vontade, e não pelas ordens do imperador, que os seus servos seriam despojados da vida. Três dias depois, seus corpos foram retirados de lá, na presença do imperador. Não havia neles qualquer traço de fogo; exalavam um agradável odor, e pareciam entregues a um doce sono. Os corpos foram deixados sobre o solo por vários dias, e toda a cidade acorreu para ver o milagre.1"

Como o nosso Deus nada faz em vão, muitos foram convertidos mediante este milagre, e tornaram-se cristãos fervorosos. Os corpos dos mártires foram roubados por cristãos, e poste­riormente enterrados juntamente com o touro de bronze no local onde se deu o martírio. Uma bela igreja edificada ali tem sido reconstruída e reparada durante os últimos quinze séculos, e ainda homenageia o nome do virtuoso Plácido, e guarda os seus restos mortais. Na mesma urna repousam os restos de sua fiel esposa e de seus filhos, aguardando o soar da trombeta do arcanjo, no último dia.

Os Bolandistas entram numa longa e erudita discussão sobre a autenticidade dos Atos de Eustáquio, que eles apresentam na versão original grega. Embora, na narrativa acima, tenha­mos nos esforçado para evitar a monotonia dos fatos isolados, e dado uma roupagem imaginá­ria a história desse santo homem, procuramos ater-nos substancialmente aos fatos apresenta­dos nos Atas. A obscuridade e a dúvida causadas pelo lapso de dezessete séculos, e o caráter extraordinário dos fatos registrados, fazem-nos hesitar em declarar que esta estranha historia seja um fato incontestável. Contudo, ela parece resistir ao teste de cuidadosos exames. Alguns dos mais antigos e notáveis martirológios mencionam a sua extraordinária conversão durante a caçada de um antílope, e o seu martírio no touro de bronze. João Damasceno cita a história de Eustáquio num sermão pregado em 734 d.C. A tradição indica o local, no monte Apenino, onde se deu a singular conversão. E supõe-se que uma capela construída ali, no quarto século, tenha sido erigida por ordem de Constantino, cujo primeiro cuidado, após sua conversão e triunfo, foi dedicar e preservar os pontos sagrados e históricos da Igreja Primitiva.

Um rude mosaico do quarto século, representando um antílope e outros episódios da vida de Eustáquio. foi removido da pequena igreja, e acha-se preservado na Coleção Kircheriana. O erudito e fidedigno Barônio, após cuidadoso exame dos Atos, pôde apenas dizer estas palavras: "Putamos tamen eis multa superaddita esse", 120 d.C. ("Achamos, contudo, que muita coisa lhes tenha sido acrescentada"). Os autores do Bolandista, no entanto, parecem inclinar-se a sua probabilidade.

E inútil e absurdo indagar por que o Todo-Poderoso usaria esses meios extraordinários para a conversão de Plácido. Existem enigmas nas dispensações dos favores divinos que só podem ser esclarecidos pela inteligência divinamente iluminada. Pode-se igualmente perguntar por que o apóstolo Paulo foi convertido na estrada de Damasco, e não na cidade, e por que foi feito um vaso escolhido, quando havia tantos mais merecedores que ele. Por que o Senhor Jesus realizou um de seus maiores milagres usando terra misturada à saliva? Por que Ele fez de pobres pescadores líderes de sua Igreja? Há coisas nas Sagradas Escrituras mais extraordinárias que qualquer uma mencionada em nossa narrativa. À nossa volta, em cada momento de nossa existência, e em cada parcela da Igreja de Deus, há intervenções sobrenaturais de sua misericórdia e seu amor -milagres, se você preferir chamar assim - que a inteligência humana não pode compreender. E orgulho e sinal de infidelidade zombar das obras de Deus por causa de sua aparente estranheza.

Quem pode impor limites ao poder e ao amor de Deus? Aquele que não possui a humildade e a simplicidade da fé. Embora não estejamos sob pena de anátema para aceitar tudo o que se acha registrado sobre a vida desses santos servos de Deus, também não estamos aptos a dizer que são romances e contos inúteis. Mas alguns deles são, dirá você. Pode ser, mas é difícil especificá-los. Quando passamos a examinar qualquer uma dessas vidas singulares, somos levados por uma tempestade de provas e fontes autorizadas, que nos faz sentir vergo­nha de nossa dúvida. Tentamos fazê-lo, e falamos por experiência própria; não existe estudan­te de história justo e honesto que não tenha experimentado o mesmo. Todavia, há muita gente ignorante e presunçosa, que vê tudo através das lentes do preconceito; tudo o que é estranho, consolador, ou impressionante nos anais sagrados do passado são para eles vislum­bres da fantasia, e condenam tudo com um sorriso de sarcasmo. Para esta gente, a fé dos fiéis, seu passado e seu futuro, nada é além de ouropéis e imaginações.

 

 

 

 


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